terça-feira, 1 de dezembro de 2009

o canto dos pássaros



Tive ontem a oportunidade de conversar com Albert Serra, numa sessão de cinema que diz muito da cultura dita cosmopolita. A estreia deste filme aconteceu há quase um ano em Portugal, entretanto já tendo sido projectado em Viseu, e só hoje ontem chegou a Berlim. A sala, um cubículo com cerca de 50 lugares (5 filas com 10 cadeiras cada), estava vazio. 10-15 pessoas assistiram ao filme, para a conversa com o realizador ficaram 7.

E o que é que o cineasta nos contou? Aquilo de que já desconfiávamos: que nunca estudou cinema, nunca assistiu à rodagem de um filme que não um dos seus e que é o autor dos 2 melhores filmes dos últimos 30 anos em Espanha. E é verdade. Os dois filmes de Albert Serra aspiram à universalidade. Sobre o último, já muito foi dito. Se calhar interessa deixar aqui alguns pormenores técnicos. Serra filma em digital, mas faz a passagem a 35mm com todos os cuidados. Isto interessa, porque o digital tem uma profundidade de focagem muito superior, o que nos dá sequências muito pais pictóricas, onde cenário e pessoas estão dentro do plano (já não é um plano, quase um volume...) de focagem. Este pormenor, que não salta à vista senão quando nos é revelado, provocara durante o filme uma sensação de que assistiamos a uma sequência de quadros, uma forma muito inteligente de retratar um episódio pouco descrito na bíblia (cerca de três linhas), mas muito documentado visualmente ao longo da história da pintura.

No entanto, o filme 35mm não pode ser ipsis verbis o filme digital. Isso introduzir-nos-ia no mundo da video-arte, aparentemente não muito apreciada pelo realizador. Ao contrário de Honor de Cavaleria, onde interessa uma clareza e proximidade com os actores, em El Cant dels Ocels, interessa manter uma distância religiosa, cinematográfica, a lembrar os épicos do grande ecrã. Serra consegue-o monumentalmente.

Continuo a achar que o cinema de Albert Serra não é universal, apenas aspira à universalidade. Como discutimos ontem, não há maneira possível para alguém olhar para um filme como o Honor de Cavaleria e entender tudo o que se lá passa sem ter lido D. Quixote. Parece que a recepção do filme não foi tão boa fora da esfera da cultura ocidental. Pudera.

Mas eu vou mais longe. O filme capta formas de viver, caminhar, falar e de não fazer nada que não são comuns sequer a toda a europa.

Quem nunca teve uma conversa sem sentido numa pedra quente à beira rio, muito dificilmente compreenderá isso.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Cálculo crítico

Quanto ao tema abordado num post anterior, ao primeiro parágrafo nada posso acrescentar, já que nunca li deleuze nem tenciono ler (a primeira tentativa que fiz foi quando era estudante de engenharia, o que tornou as coisas ainda mais difíceis).

Quanto ao fim das coisas, e a Marx, estou a ler finalmente o fim da história e a reparar numa série de pecados cometidos pelo autor. Primeiro, o livro é de um etnocentrismo aterrador. Fica-se com a impressão que o ocidente é todo constituído pelos seus tipos tradicionais (ou aqueles que nos quiseram fazer crer como tradicionais). Depois de se ler das virtudes das democracias liberais, fica-se com a impressão que as sociedades ocidentais são socialmente móveis, e ao mesmo tempo culturalmente estáveis. O autor pega por assim dizer numa sociedade, digamos, os franceses, e trata-os como se tivessem todos baguetes debaixo do braço a tocar concertina. Para o autor, tal como para o modelo que ele defende, não há descontentamento, migrações e exclusão social. Por isso é que história podia acabar.

Nos anos noventa ainda se vivia uma certa cegueira social, que só o terrorismo veio resolver.

De qualquer maneira, o livro tem um bom fundo, que é o de ridicularizar o caminho em direcção ao fim da história que é representado por um certo tipo de comunismo.

Ainda tenho explicar aquilo do Chostakovich. Para já fica a música.

piratas e pescaria

Antes de ir de fim de semana, deixo uma reportagem interessante sobre os piratas da somália e o declínio da pesca ilegal na região, para alegria e properidade da população local.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

o meu pópó













estes atrasados a gozar (atente-se no mongoloide a fazer piadas dentro do seu punto gt -- o automovel e' realmente um factor de alienacao)

e eu nem de proposito a acabar de tirar uma foto de uma rua ao lado da minha casa com precisamente a mesma ideia implementada... ha 20 anos.

sábado, 14 de novembro de 2009


muito giro

mais uma fantástica contribuição para este pasquim rançoso para muito breve. Abordar-se-á
a quinta sinfonia de chostakovich
a etnologia e os seus bastardos, os museus
a reabertura do novo velho novo-museu de berlim depois do seu restauro

porque agora estou sem paciência

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

o meu comunismo é melhor que o teu

Um assunto que nos interessa a todos está a ser amplamente discutido no 5dias.net (clicar para a ligação). Trata-se dos diferentes comunismos que cada um traz em si. O que me interessa no argumento do autor, é principalmente a parte em que ele refere que do embate do indivíduo com a realidade surgem imperfeições, o real torna-se imprevisível. O meu comentário, que lá ficou gravado:

Carlos Vidal: não posso dizer que gostei de ler a sua posição. É fácil
concordar ou identificar-se com heróis de revoluções passadas. Respeito a sua
iconografia pessoal, mas gostava que me explicasse como se posiciona em
relação ao presente. Onde está a “dor”, e quem a vai provocar a quem, que
nos vai levar à “liberdade”? Refere e muito bem o “real” como parte
incontornável do seu comunismo, mas depois concentra-o em si, argumentando
que o “real” se transforma quando bate em si. Encantado quanto às
referências que apresenta, mas esta forma de representar o real parece-me
muito centrada em si e na forma como racionaliza o real. O que a mim me
parece é que o “real” já é “imprevisível”, “imperfeito” e “indecidível”
antes de embater contra si. E quando o vê a partir do monóculo do comunismo
já o está a problematizar de uma certa e determinada maneira. É o problema
de olhar através de um monóculo histórico. A história pode ensinar-nos
muito, mas ensina-nos principalmente o que queremos ler nela.

A imperfeição das relações humanas, a estrutura variável das diferentes sociedades no tempo e no espaço não permite que se assuma uma matriz teórica que as permita arrumar e resolver. Aliás, esse foi o erro de muitos regimes comunistas do passado que, atendendo ao que diz, continuam a poder ocorrer.

A democracia liberal é o /único/ regime onde as imperfeições de que fala podem ser tratadas humanamente, minimizando a dor. Felizmente que chegámos a este ponto, onde esse regime já vigora nos países onde vivemos. É no entanto um regime que exige permanente atenção e constantes iterações, mas isso deve-se precisamente ao carácter imprevisível e indecidível da realidade em si (não do choque do indivíduo contra ela).

Pelo contrário, o seu comunismo vê a realidade a partir de uma matriz determinística, necessariamente causando “dor” para corrigir as diferenças entre aquilo que o senhor acha que a realidade devia ser, e aquilo que ela é.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

e deixo-vos com imagens de berlim...






compras de hoje


Não podia deixar de partilhar convosco a imagem de um dos queijos que comprei hoje. Trata-se de um Gouda meio-velho, de 12 meses. Tem pepitas de sal cristalizado naturalmente durante o processamento. Os restantes, com os quais não vos masso, foram um Bergkaese velho de 15 meses e um Camembert de cabra em fase quase líquida (e estavam 10 graus lá fora!).

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

jogada de antecipação

E afinal chegou mesmo o poste sobre o Nicolau Stern.

Alguns ponto de que me lembro.

1. de uma forma geral, a teoria do crescimento económico (crescimento do PIB e afins) não tem grande sentido. Não contempla fortalecimento de instituições, avanços tecnológicos ou escolhas fundamentais de uma sociedade que possam não estar fundamentadas em termos económicos simples, mas em ética.

2. a taxa de actualização (TA) de um investimento, ou taxa de juro, que quantifica vontade de uma sociedade em gastar o dinheiro já em vez de o investir a X anos, também não tem grande sentido nos termos em que é utilizada no mercado. Uma escolha fundamental numa sociedade altera a TA, e essa mesma TA vai sendo alterada ao longo do tempo, quando novas escolhas forem feitas. Isto impõe uma dimensão adicional, a ética, que não é contabilizada. Um negacionista das alterações climáticas não valoriza da mesma maneira um investimento em tecnologia como um crente, porque as decisões de hoje só vão ter efeito daqui a 30 anos ou mais, e há alguma probabilidade de nem chegarem a ter qualquer efeito. Para tomadas de decisão na zona de influência das alterações climáticas, uma estimação da TA consentânea com a dimensão ética é fundamental. Uma discussão a seguir neste contexto, já que o próximo relatório do IPCC vai ter uma capítulo sobre o assunto: "Economics and Ethics".

3. a velha análise custo benefício sofre novo linchamento público. E de facto, a magnitude dos riscos de que falamos quando falamos de alterações climáticas é tal, que torna uma ACB insignificante. De novo, o custo da acção ou inacção quanto às alterações climáticas não é quantificável em termos de percentagem de PIB, porque se os prognósticos estiverem certos (acredito que alguns estejam, pelo que vi dos modelos a funcionar no meu instituto), o que nos espera com alguma probabilidade é, no caso de inacção, migrações de milhões de pessoas e consequentes conflitos à escala global por recursos naturais. Por outro lado, o valor dos serviços ambientais não está de todo clarificado: o que nos parece um dado adquirido, como terra arável, a chuva, a capacidade de limpeza natural dos rios, ou os serviços prestados por esta ou aquela espécie, torna-se rapidamente num serviço escasso e largamente valorizado (veja-se o caso do preço do petróleo). Como muitos destes sistemas têm um tipping point, ou um ponto de não retorno ou ponto de irreversibilidade, e para mais são nesse aspecto não lineares, torna-se muito complicado introduzi-los numa ACB. Uma possibilidade apresentada hoje, e que foi utilizada na Stern Review, são os métodos estocásticos. Acaba-se com o determinismo e o modelo em vez de apresentar um resultado apresenta um domínio de resultados. A vantagem é que se percebem melhor os processos, e se ganha consciência da incerteza associada (ai, a incerteza...)

4. último ponto, "market failures". O homem causa estragos quando emite CO2. Quando consome electricidade está a pagar directamente a produção, mas não as externalidades da produção, que são a emissão de CO2. Mais uma vez sou tomado por consumidor e vice-versa. Uma questão que me é cara, mas de difícil circumnavegação. O que fazer, legislar/regular ou internalizar os custos? Eis a questão. Deixou-nos com duas ideias à discussão: é preciso credibilidade nos modelos económicos que regem os mercados, por isso é necessário internalizar os custos das emissões de CO2, apesar de ser o diabo quantificá-los. Por outro lado, a regulação e a política têm de ter uma palavra a dizer.

e pum

...que eu também tenho direito

uma dobrada fria

Hoje serviram-me duas refeições distintas. A primeira, a que lá chegarei eventualmente noutro poste, consistiu na pomposa atribuição de um honoris causa a um lorde, Nicholas Stern. Por muito que despreze títulos nobiliárquicos, o economista que hostenta este não é nada parvo. É o autor do Stern Review, para quem não conhece, um relatório publicado há um ou dois anos sobre o impacto económico das alterações climáticas. Para além de ser um bom economista, pertence ao pequeno grupo dos que pensa em ética e escolhas fundamentais antes de dar números às coisas. Pertence então àquela classe criada por Caines (ninquém perceberá esta piada, porque ninguém lê este blogue) de ingénuos que apesar de terem a possibilidade de enriquecer facilmente nos mercados financeiros, se dedicaram a policy making. Por isso lá estive na sua Climate Lecture na universidade técnica de berlim, esse exemplar caixote de lixo da história da arquitectura.

Mas o que me aqui traz neste momento de indisposição corporal e cerebral, é a mixórdia requentada que me serviram ao final do dia, sob a forma de um Hamlet. Cortaram texto e inventaram passagens não existentes no original. A fronteira entre o deixado pelo escritor e o que foi introduzido a posteriori não eram evidentes para o público. Porque é que me apresentam um Hamlet e não um Joaquim, príncipe da dinamarca? Porque é que o autor era Shakespeare e não o iluminado do encenador? Regra geral, quando reparamos mais vezes na encenação do que nas palavras ditas, já houve asneira.

e andavam tão sujos em palco...

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

(no subject)

Eu também acho que está longe de ter acabado, mas só acho piada escrever
que sim, porque faz-me lembrar a ingenuidade do senhor que o afirmou
peremptoriamente, como se a democracia liberal fosse um fim em si, ou
que a humanidade não mais pudesse evoluir ideologicamente. E afirmá-lo
no culminar de uma década que viu a grande fome da Etiópia, a abertura
da China, a década perdida na América Latina e um multiplicar de guerras
em África. Será que o senhor nunca saiu de Washington? Mas adiante.


Eu dei o exemplo do blogue do dr. rui tavares, porque me pareceu
suficientemente polivalente, mas apenas em termos de estrutura
conceptual, não no aspecto.

Preto também pode ser, há muito que se pode fazer com preto, por
exemplo: http://tutorialblog.org/30-black-websites/

Quanto à história material do nosso blogue, copia-se tudo para o novo,
está claro.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

uma pergunta importante:

manter basicamente o esquema da página ou criar um novo? isto a propósito da mudança de sítio há tanto tempo protelada e que agora se quer fazer entrar em vigor. é que o programador depara-se com o problema fundamental do artista falhado perante a tela em branco. atendendo ao teor do que se virá a escrever por lá, eu sugeria uma página em branco, bem estruturada, e uns gatafunhos da autoria de cada um dos que pretendem continuar a apadrinhar este meio de comunicação rasca.

tipo cada um pegava numa caneta e num guardanapo de papel e escrevia umas cenas, por exemplo umas rimas ou uns gatafunhos com manchas de vinho tinto "Capataz", qualquer coisa assim, já que qme quer parecer que a totalidade dos que se apresentam na lista de autores aqui ao nosso lado direito, para quem está a ler, esquerdo para o grande irmão que está dentro do computador, vão passar ao lado da história sentados à mesa de um tasco. se alguém achar que não, guarde os seus grandes planos para si, porque esta é terra de falhados. e de qualquer modo a história até já acabou, segundo dizem.

em termos de estrutura estava a pensar numa coisa deste género:

http://ruitavares.net/blog/

claro que tudo o que são temas de desenho, cores e forma do sítio vão ser diferentes, mas gostava de fazer um sítio onde houvesse pelo menos três secções, uma com paleio, outra com fotos ou imagens e outra com uma lista de publicações, links, documentos da autoria dos autores. cada um participaria com o que tem, quem não tem nada racha lenha. estava a pensar em particular em mim próprio, que não tenho nada a partilhar, ou no duarte, que tem sempre umas fotos para mostrar, ou ainda mais no silveira, que pode postar uns trabalhos dele e tal. claro que para isso era preciso que o resto da malta começasse a participar, mas acho que isso vai acontecer qd a página estiver em linha. qt ao domínio já estou a tratar disso, fica escrotiniodefalopio.net. ou bastará escrotinio.net? é como quiserem.

se mais ninguém participar excepto eu e o meu companheiro desta luta andré da silveira rodrigues, que é para acabar de vez com a máscara do anonimato, dizia, se ninguém mais participar, olha, paciência!

sábado, 24 de outubro de 2009

miserável com efeito, que é uma maneira de criticar e elogiar ao mesmo tempo, ou como se diria na alemanha, matando duas moscas de uma palmada só, versão politicamente correcta do portuguesíssimo dois coelhos de uma cajadada só, ou cajada, conforme se quiser, porque o que é no fim de contas uma mosca comparada com um coelho que sente, vive e que facilmete é acariciável num colo citadino e higiénico. com efeito porque provocou efeito, logo houve uma causa, o hiperfeudalismo, que me foi atirado à cara ou fuça pela primeira vez, tendo falhado o alvo, se porventura já foi aqui apresentado. Realmente um conceito promissor, quanto mais não seja pelas relações entre níveis de poder que encerra e a falta delas. É que, tal como no feudalismo, o pobre lavrador não estava em contacto e porventura nem sequer conhecia o seu senhor, quanto mais saber se tem rei ou não tem. Conhecia o cobrador e já era muito bom. Da mesma forma se configuram hoje em dia as cadeias de poder económico, ninguém sabe que é dono de quê, a propriedade dissolve-se pela cadeia de poder acima, empresa x é controlada por holding y, que por sua vez controla o consórcio z com interesses no sector das obrigações e pia fora, parafraseando um conhecido publicista. Até me lembra a história de fonte segura mas anónima, que contava que à pergunta "sois portugueses?" feita pelo rei d. carlos a uns pescadores que boiavam ao largo da costa atlantica, obteve a real figura a resposta que não, que eram da póvoa. Decerto restos de um feudalismo adaptado, já que não há memória desse sistema económico e social no sector da pescas, antes um percursor dos movimentos libertários sem o saber.

Mais haveria a dizer quanto ao facto de precisarmos ou não de mais estado, se calhar precisamos é de menos estado, mas noutros sítios, o que me lembra precisamente um dos nóbeis da economia 2009, mais precisamente a senhora.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

isto é só uma experiência

Estou neste momento a publicar directamente do meu cliente de email do
trabalho para o blogue. Uma forma fácil de *parecer* que se está a
trabalhar escrevendo um email sério de trabalho, quando na realidade se
está a escrever baboseiras num blogue vaginal. Aproximam-se tempos de
grande participação!

domingo, 4 de outubro de 2009

tudo é negociável

aproveito a deixa do irritante Guido Westerwelle, líder do FDP e provavelmente o próximo ministro dos negócios estrangeiros alemao, que, depois de conhecidos os resultados das eleiçoes e referindo-se à coligaçao com a CDU, defendeu que o seu programa eleitoral é negociável, o programa da CDU é negociável, e tudo o resto é negociável. Um elemento do seu partido chegou mesmo a questionar-se se existiria algo neste mundo que nao fosse negociável -- pergunta idiota que para já fica sem resposta.

É um bom contraponto à situaçao que se vive neste momento em Portugal: muitos princípios, muitos princípios, mas depois esquecem-se que há um país para governar. O que nos leva a outra questao: estando o país sem governo efectivo há largos meses (entre campanha eleitoral, précampanha e governo de gestao), pergunto-me se já nao nos fazia falta um governo que nao fizesse reformas (eu seeeei, isto é uma barbaridade, mas o que querem?), que só deixasse as coisas andar, sem construir, sem legislar, o que iria em parte ao encontro da neste século já velha teoria malthusiana aplicada à macroeconomia dos limites do crescimento económico, por seu turno aplicada à ciência política. Um caro co-fundador deste pasquim indignava-se e bem com a resposta que um famoso ou menos famoso político dava a um problema x arbitrário: "legisla-se!". É a ecologia da fotocópia.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Mais uma legislatura que passou e nós sem um novo blogue. Quanto ao próximo acto eleitoral: se este blogue tivesse um voto nas autárquicas daqui a uma semana,a sua escolha iria cair num grandessíssimo escroto desenhado a caneta de feltro ou felpo ou felto ou lá o que é, de 3 mm, no boletim de voto. Volto hoje a Berlim.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

muito rapidamente, depois respondo melhor ao restante: há 400 000 alunos no superior público. 400 000 * 900 eur (propinas) igual a 360 milhoes. Os benefícios em IRS valem 356 milhoes. As migalhas já davam para pagar todos os anos o ensino superior a todos os alunos...

óbvio que isto são contas de merceeiro e as coisas não funcionam assim tão facilmente. Nem os benefícios fiscais do IRS seria todos eliminados. Mas pronto, digamos um quarto da propina já pagavam...

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

quem é que não concorda em mudar este blog para o wordpress? é fácil e muito mais bonito...
não acho que tenha ficado sem resposta, mas isso são pontos de vista. Para mim o argumento estava dado e, a não ser que sigamos as regras do debate televisivo -- numa linha, o último a falar é quem tem razão -- não consigo vislumbrar qualquer contra argumento do lado de JS.

Os benefícios fiscais têm tudo a ver com a classe média, porque são as classes média e alta que os aproveitam. Ora, sendo a classe média em número muito superior do que alta (infelizmente), o grande buraco nas contas do estado vem da primeira. Servindo a política fiscal como arma de redistribuição da riqueza e atenuadora de diferenças sociais, não faz sentido que esteja a contribuir para mais uma. Na prática, está a servir como um incentivo à diferenciação à partida. Uma família de classe média alta passa a ter um desconto na mensalidade de um colégio privado para os seus filhos, ao passo que uma família de classe média baixa nunca poderia pagar a mensalidade desse mesmo colégio, pelo que passa a não beneficiar desse mesmo desconto. Em vez disso, vai ter de gastar o seu dinheiro em manuais escolares, que o estado não consegue pagar porque gastou dinheiro desnecessário e indutor de desigualdades a pagar o colégio do mais rico. Isto é apenas um exemplo, podemos pegar em qualquer outro. Há ainda outro argumento, é que os benefícios fiscais podem ir até cerca de 3700 euros por ano, valor que os trabalhadores pior pagos não conseguem sequer atingir em taxas de IRS. Portanto nunca poderão usufruir da totalidade do benefício fiscal. Só isto já revela a injustiça da actual política fiscal e revela a relação entre os benefícios fiscais e a classe média. E os nossos pais vão ficar a perder 3700 euros por ano. É essa a relação. No entanto quando eu estiver a trabalhar em part time (mas com contrato) e não pagar impostos suficientes para poder recuperar 3700 euros vou pelo menos ter à minha disposição melhores serviços públicos.

E não concordo com o argumento das migalhas, em parte por isto: http://resistir.info/e_rosa/beneficios_fiscais_set09.html

e em parte porque essas migalhas podem ser imediatamente desviadas para pagar livros escolares ou medicamentos.

Quanto à saúde pergunto: achas mais provável o bloco ou o PS proibirem a acumulação de funções? De resto não percebi muito bem o que querias dizer com as taxas moderadoras.

Não concordo quanto ao ensino superior. Acho que deve abrir-se ainda mais a quem quer que lá queira estudar. Prefiro mil vezes um desempregado licenciado em biologia ou gestão do que um desempregado sem nenhuma qualificação. E qual é o problema de um licenciado trabalhar na construção civil? Só uma universidade aberta a todos pode ser um mecanismo de inclusão social (e atenção que nos últimos anos ficaram por preencher milhares de vagas no ensino superior, portanto há mais oferta do que procura). Idealmente esse seria o papel do ensino básico e secundário, mas não o podendo cumprir, pelo menos que a universidade faça a sua parte. Depois, bons alunos, investigação e bolsas, isso é outra história, e aí é que não vamos lá com migalhas.

O alegado não serviu para duvidar da tua história. Eu acredito nela e até a compreendo. Quanto a saneamentos, não conheço nenhum no BE, mas não estou muito informado da sua política interna.

E, ó andré, eu também não gosto do estilo do FL, mas olha, gosto menos dos outros!

domingo, 13 de setembro de 2009

ainda sobre o louçã

sobre um texto do pacheco pereira vale a pena ler este comentário:

http://spectrum.weblog.com.pt/arquivo/2009/09/post_23.html

acabei de mandar o pai natal e respectivo relógio ao ar

e agora que li, discordo mesmo. FL perdeu as estribeiras, porque JS fingiu que nao percebeu o que se ali estava a discutir quando FL apresentou a sua proposta de simplificacao fiscal. JS pensou que FL quereria esconder essa medida do seu eleitorado, nada mais errado, essa é uma medida fundamental do seu programa, porque só ela representa mudanca. Mais nenhum partido à sua direita a apresenta e no entanto, é possível que seja a medida mais pragmática e liberal que está a ser debatida actualmente -- e logo vinda do BE... Esta medida e a insistencia de JS em a criticar, só desmascara a política do próprio: favorecer o grosso do eleitorado de classe média dando-lhe umas migalhas, mas depois hipotecando toda a sociedade no que diz respeito à universalidade do sistema de saúde ou do acesso à educacao. Em suma, JS está a favorecer a geracao dos meu pais, que beneficiou de pleno emprego, plena insercao na funcao pública e contratos por conta de outrém vitalicios, em detrimento de todos os portugueses com menos de 40 anos, que nao entraram nesse sistema de beneficiários e subsídios e que foi deixado por sua conta em trabalhos temporários ou por conta própria. E aí é que sao elas, FL deu uma machadada na esquerda do centrao e na direita de uma só vez. E com isso apresentou o seu partido como um partido de governo. Resta saber se, tirando a cúpula dirigente, o resto do partido está à altura.

Quanto à alegada alegria de FL aquando do alegado encerramento de uma alegada fábrica e consequente tristeza dos muitos trabalhadores que perderam emprego, causada pela perspectiva de mais 15 min de ataques ao governo num telejornal,

1. FL é um revolucionário. A dor que sente com injusticas sociais é a geral, nao a particular. As desigualdades, a pobreza e a exclusao causam-lhe decerto tanta angústia como a mim e a outros. Simplesmente é da sua profissao instrumentalizar o sofrimento dos outros em proveito da sua causa, tal como todos os outros políticos o fazem. Que no decorrer do seu dia a dia se alegre quando lhes aparece mais uma oportunidade de passar a sua mensagem nao deve ser único a FL

2. A direita é que inventou essa coisa da caridade

3. Já na correspondencia, Lenine se queixa das boas condicoes de vida do proletariado norte americano, pois isso nao permitiu o pleno desenvolvimento de um partido comunista nos EUA (admito, nao é o melhor exemplo...)
Acabei agora de ver o debate e discordo de tudo o que foi escrito no anterior post, mesmo antes de o ter lido. O FL só teve um apontamento de moralisto, quando se referiu ao JS como "feio", já cá para o fim do debate, mas gostos sao gostos e com isso ninguém tem nada a ver.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

tanto cinema eu já vi, e continuo a maravilhar-me com um simples james bond...

domingo, 12 de julho de 2009

e de como o benfica, em estado virgem, inocente e proletário, se torna um exemplo de democracia, quando comparado com o portugal par coeur. exilados somos, mas todos, que esta terra não é senão um arquétipo do que desejamos. tal como o benfica
eh pá, faz-nos falta sabem o quê? é um empresário de sucesso, bem geladinho, com um pratinho de tremoços.
ouvi agora um sr.(doutor e respeitado e tudo!) dizer que, sabe, o problema de portugal é a economia. pois. também disse que ainda nenhum governo se decidiu a identificar o problema de portugal. pois.

é a economia! é a economia! não vale a pena falarmos de desemprego, de desigualdade, é a economia!

o problema da nossa economia foi a entrada para o euro! não é que estivessemos melhor de não tivessemos entrado para o euro, mas...

nós precisamos de robustecer o sistema de produção português para poder competir no exterior.

por que raio as pessoas insistem em comprar sempre bacalhau da noruega e gás da argélia, pá! que coisa pá!

podem ver em directo o doutore medina carreira a doutrinar sobre um país, de cor e de coração, algures aqui

http://gritameaoouvido.blogspot.com/

aiiiii os bons velhos tempos....

terça-feira, 9 de junho de 2009

amanhã

vai estar quase metade da redacção deste blogue em berlim. que tal uma assembleia geral? quem está, está, quem não está estivesse, temos quorum! :)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

"portugueses! é preciso incentivar a participação ao nível local"

O caralho! Não podia estar mais em desacordo! A participação existe, só que ninguém a ouve. Os políticos não estão interessados nela. O que eu já vi na assembleia municipal de viseu, quando um movimento de cidadãos sem aspirações políticas apresentou propostas alternativas
à construção de um centro comercial foi uma demonstração de falta de democracia profunda. Os oradores foram atacados pessoalmente e não politicamente pelo próprio presidente da câmara. Tive vergonha de ser português e viseense naquele momento. Apeteceu-me se anarquista. Pessoas competentíssimas a apresentarem sugestões e a serem ignoradas. Não, meus caros, se estivermos à espera da boa vontade dos filhos que estão agarrados ao poder, as putas nunca terão uma palavra a dizer. A mudança impõe-se estrutural: em Lisboa existe orçamento participativo porquê? Porque há legislação que o permite e se Lisboa não tivesse parecia mal por ser uma capital europeia. Agora alguém quer saber das capitais de distrito para alguma coisa? A política lisboeta ainda está vulnerável a críticas exteriores, agora Viseu ou Chaves, quem é que se interessa? É necessário uma lei que OBRIGUE os políticos a perguntar ao povo a sua opinião. Alguma vez tinha sido construido um centro comercial gigante em viseu se os comerciantes tradicionais tivessem tido voto na matéria? Alguém lucrou em viseu com mais um centro comercial? Talvez 2 ou 3 pessoas...

Chegámos a um bifurcação: o povo não se interessa pela política. Agora, ou os políticos se aproximam do povo e discutem os assuntos com as partes interessadas, ou então continuam a fazer a sua política de merda que já destruiu um país em menos de 30 anos.

Voltem, projectos SAAL, estão perdoados!

quinta-feira, 28 de maio de 2009

+1 confere

e continuando o meu périplo wagneriano de segunda acabo agora de chegar de um Tanhaeuser. Uma bonita história de cruzamento entre amor carnal e espíritual, amor físico e platónico.

Há uma coisa engraçada nesta série de óperas que tenho visto: soam a corriqueiras, dada a frequência com que são levadas à cena. Este Tanhaeuser é apresentado semanalmente durante o último meio ano, intercalado com mais duas ou 3 óperas de Wagner, Strauss, Puccini e Verdi, todos os dias há música naquela sala, sempre tocada pela mesma orquestra (com formações diferentes, mas ainda assim...). Isto faz com que um Tanhaeuser seja um pão nosso de cada dia, com as implicações artísticas que isso comporta. Isso transparece na interpretação, quer no nível de concentração da orquestra e dos cantores, quer na atitude mais clemente do público, que perdoa falhas e valoriza muito mais o que foi bem feito do que as falhas pontuais que há sempre aqui e ali (coro desgovernado logo a seguir ao prelúdio, uma madeira desafinada em pontos chave da obra, dinâmica perfeitamente exagerada nas escalas cromáticas descendentes que pontuam toda a peça, TARA-TARa-TAra-tara-tara-tara-tara-TARA-TARa-TAra-tara-tara-tara-tara-tara-etc -- está mal!)

Mas agora a intriga: o Heinrich é um malandro e visitou o monte de Vénus durante o prelúdio. Vénus ficou visivelmente satisfeita, mas Heinrich teve de se ir embora sem sequer tomar o pequeno almoço (onde é que eu já vi isto...). Depois decide voltar, mas o pai de Vénus organiza um concurso entre cavaleiros onde o que cantar melhor o seu amor ganha os favores da germânica Afrodite. Encantados da vida por não terem de desembainhar a espada, todos cantam laudas ao amor espiritual, ai meu deus que és mais bela que a estrela da manhã, tão virgem que és minha filha que nem te posso tocar e por aí fora... Chegada a vez de Heinrich, o que se ouve é um hino ao prazer, à fertilidade, ao amor carnal, "quem anuncia o amor espiritual nunca subiu ao monte de Vénus", apregoa ele (e bem). Óbvio que o pai não gosta e, azar dos azares, por acaso até é duque daquelas terras onde todos viviam, de modo que manda o Heinrich dar uma volta, lavar os pecados a seco em Roma e se regressar vivo, então sim, pode tomar Vénus para si (tomando também Vénus Heinrich para si, porque o gosto pelos lençóis é recíproco). Há mar e mar, há ir e voltar, regressa Heinrich, já com a alma a cheirar a alfazema: o amor carnal é completo, verdadeiro e vale por si, não ficando em nada a dever ao espiritual, porque Heinrich sofre como um apaixonado, física e emocionalmente. Mas tudo acaba bem.

As conclusões são muitas, mas principalmente o que fica é uma mensagem muitíssimo romântica (do romantismo, não cor-de-rosa...) dos primeiros contactos em muitos séculos com a carne, com a paixão flamejante, erótica, que dava os primeiros passos. Pelo menos foi o que me pareceu. A soprano também era bem boa. E por aqui ficamos

segunda-feira, 25 de maio de 2009

daaassssssss

...brotafortes! podias começar a acção revolucionária escrevendo bem as ligações! ;)

http://escrotiniodefalopio.blogspot.com/2008/03/eu-permaneco-tu-permaneces-ele.html

http://serenaoser.blogs.sapo.pt/33920.html

http://maydaylisboa2009.blogspot.com/

estas são!

as outras não!

quarta-feira, 20 de maio de 2009

de que estamos à espera?

http://monteolivete.blogspot.com/2006/03/13-teses-da-fagtl.html

segunda-feira, 27 de abril de 2009

graças ao barómetro da UE fiquei a saber que sou de esquerda. Obrigado Segismundo, tiraste-me um peso da consciência, sempre me interroguei no fundo da minha consciência se não era afinal um fascizóide recalcado.
Um dos critérios para que num estudos de impactos socio económicos de uma barragem é o Indicador de Educação. Isto foi tirado do plano de barragens do ministério das obras públicas:

− Impacte positivo elevado – presença de populações com baixos níveis de qualificação
(Atalaia, Padroselos, Castro Daire, Fridão, Rebordelo, Assureira, Pêro Martins,
Alvarenga);
− Impacte positivo de menor amplitude – onde se localizam os Municípios com
populações de maior nível educacional (Póvoa, Pinhosão, Asse-Dasse, Sampaio,
Girabolhos, Foz Tua, Midões, Erges);

quer dizer que os níveis educacionais de Castro Daire vão subir porque se lá vai construir uma barragem? Desde quando é que uma barragem é um investimento em educação? Podia tirar muitas conclusões, mas prefiro não o fazer, isto é cómico demais...

quinta-feira, 16 de abril de 2009

críticos

vou escrever sobre eles em breve...

terça-feira, 14 de abril de 2009

um lohengrin do meu agrado

Stefan Herheim foi o encenador do nosso lohengrin. Parece que esteve no ano passado em Bayreuth. A critica foi muito dura nos jornais, mas nao concordo tanto que a encenacao tenha sido tao disparatada quanto dizem...

http://www.tagesspiegel.de/kultur/buehne/Festtage-Staatsoper;art19533,2767573

acaba assim:

"Olhe, por favor: quando parte o proximo cisne?" ehehe

mas quando um critico passa metade do artigo a escrever sobre jogadas de bastidores, como por exemplo o caso de o encenador ter chamado o Baremboim indisciplinado, ja diz muito do sujeito. acho que e' uma critica para desconsiderar.

De resto, continua com duvidas relativamente ao tenor, diz que nao sabe se ele fez aquele papel ensosso de proposito ou se nao sabe fazer mais: pergunta totalmente irrelevante se tivermos em conta que a escolha de um cantor ja e' de si uma decisao estetica e de encenacao... mas adiante, uma critica para esquecer...

sábado, 4 de abril de 2009

a responsabilidade não é de todos

Para contextualizar, vem isto a propósito de nos últimos tempos me terem aborrecido com a faceta política do consumidor. Primeiro, querem-me convencer que sou consumidor. Depois, que eu, como consumidor, posso tomar decisões de raiz política. Ora, isto encerra uma mentira e uma contradição.

Eu não sou consumidor. Ninguém é. Quando alguém me diz que o sou, sinto-me insultado. Acho que sou mais do que isso. Sou uma pessoa política, consigo perguntar-me o que é uma obra de arte, passo por grandes crises filosóficas e contribuo para o avanço da ciência. A minha vida não se resume a consumir o que outros produzem. Isso faz parte dela, num maior ou menor grau, como sempre fez parte da vida de qualquer pessoa que tenha existido. Esta é a mentira com que nos acenam. Se a aceitarmos e fizermos a união de todas as partes, então encontramos a sociedade de consumo, a qual eu não acredito que exista. É uma construção intelectual, como todos os outros qualificativos que se encontrem para uma "sociedade": tecnológica, da informação, primitiva, mercantil, teocrática, burocrática, e por aí fora. Simplesmente, esta construção foi criada para nos fazer crer que pertencemos a ela e que dela não podemos fugir. Que não podemos deixar de consumir. Isto é-nos passado de diversas formas, não foi idealizado por ninguém em particular, foi crescendo, porque na medida em que foi beneficiando determinados grupos que a foram fomentando. Acho que chamam a isto um "discurso". A construção de um paradigma na sociedade, no qual todos na generalidade concordem e o aceitem, não o questionando. Acho que é esta a mentira.

A contradição é que, mesmo partindo do princípio que sou um consumidor, i.e., que à luz da sociedade de consumo o indivíduo é considerado um consumidor, sendo as suas escolhas e acções encaradas como tal, essas mesmas pessoas me querem fazer crer que o consumidor tem uma voz para ser ouvida. Aqui chega a contradição: dizem esses senhores que essa voz toma a forma do consumo. E que o facto de eu escolher uma cenoura bio para enfiar no rabo é um acto político (pelo facto de ser bio, claro). Eis, portanto, o admirável mundo novo: já não é necessário o debate político ou de ideias sobre a sociedade, as nossas acções no super mercado bastam. Para além da necessária falta de gosto, é uma grande contradição. Se é aceite que o consumidor tem uma voz (a sua escolha entre bio e não bio, ou entre uma detergente mais ou menos poluente), essa voz seria melhor utilizada na arena política, não na dos legumes. E é isso que se tem visto. As recentes manifestações por toda a europa provam não só que estamos fartos de não ser ouvidos como também que temos coisas para dizer. E que o super mercado evidentemente não chega para as nossas ideias. Resumindo a contradição: se o consumidor é um consumidor político, necessariamente vai encontrar melhores locais para o debate do que na prateleira dos congelados.

Esta linha de pensamento acaba normalmente na culpabilização de todos, o que é a mesma coisa que dizer que acaba na desculpabilização de quem tem na verdade responsabilidades pelo estado a que chegou a qualidade da água, do ar, dos nosso recursos ecológicos em geral; ou, extrapolando para outras áreas, para o estado da economia de um país, para determinados problemas sociais, etc. É uma linha de pensamento transversal a muitos problemas: se os consumidores tiverem peso na consciência, vão culpabilizar-se, entretanto esquecendo-se de averiguar que de facto é responsável por um determinado problema. Vejamos no caso da agricultura biológica. É aceite que é benéfica para o meio ambiente e saúde pública. No entanto, a escolha é deixada ao consumidor: se ele quiser, pode por mais uns trocos não contribuir para a utilização excessiva de pesticidas, por exemplo. Assim vai feliz para casa e não precisa de se preocupar. Sabe que todos têm essa possibilidade e que, se todos forem bons samaritanos, todos vão comprar bio. Acontece que nem todos compram por diversas razões. E a acção política do consumidor acabou no momento em que ele comprou o produto. Continua a haver agricultura intensiva, sem escrúpulos ambientais, mas o que importa é que, como a escolha está lá, existe já um argumento a favor da parte interessada: a escolha existe, a responsabilidade está do vosso lado.

Atingimos o busílis da questão. O racionalismo existe para corrigir essa arbitrariedade. Não nos podemos deixar ir no laissez-faire que esta linha de pensamento implica. Decisões devem ser tomadas baseadas em argumentos racionais. Se sabemos que a agricultura intensiva prejudica irreversivelmente o meio ambiente, é necessário fazer alguma coisa por ela. Não se pode esperar que eventualmente os consumidores se decidam a ter consciência ambiental (também ainda está por provar que os consumidores consigam mudar o que quer que seja). A responsabilidade não é de todos. Quem tem responsbilidade deve agir, orientado pelo debate político e por argumentos racionais. Existem argumentos, o debate está aí, é necessário chegar a uma conclusão e agir. Refiro-me à agricultura biológica, como me poderia referir ao uso de transportes públicos, à organização do território em portugal, à utilização dos recursos piscícolas, ou a muitas outras escolhas fundamentais.

O voto e o debate político existe porque queremos não deixar coisas por fazer. Existem argumentos subjacentes a todos estes temas que podem e devem ser discutidos. Este é um tema de uma importância suprema na encruzilhada em que nos encontramos, em que a democracia perdeu muito do seu significado antigo, mas onde possibilidades de participação nunca antes vistas se tornaram banais. Por isso é que digo não ao discurso do "consumidor responsável". Primeiro porque não sou consumidor. Segundo porque a minha responsabilidade tem um alcance maior do que o consumo. Terceiro, porque há formas mais eficazes de fazer política.

segunda-feira, 2 de março de 2009

alguem pode dizer ao jpp para escrever em portugues?

jornalistas tentavam manter um sistema de closed shop. (um sistema de loja fechada?)

diferentes do mainstream político. (diferentes do status quo politico?)

para um pack journalism (um jornalismo de pacotilha? um jornalismo de encomenda?)

By the way, convém também não esquecer (A proposito jpp, enfia os inglesismos no recto)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

o título do ciclo

o título do ciclo que afinal não se ficou por ali ficou dado no anterior poste.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

os macaquinhos nas palmeiras a trepar vejam os hipopótamos do velho ultramar

ora continuemos com este tema que é bem premente. Neste caso o início não era o verbo, tomara que o fosse, mas sim a modernidade. Segundo o que percebi das leituras, corrijam-me se estou em erro, a tomada de consciência do fim de muitas coisas (da história, por exemplo) marcou o início da modernidade MAis tarde veio a perceber-se de que era necessário uma autocertificação da modernidade por ela própria, pelo que apareceu outra definição. Esta definição, segundo Hegel, é que o príncipio da modernidade é a subjectividade: "O que dá grandiosidade à nossa época é o reconhecimento da liberdade, a propriedade do espírito, o reconhecimento de que o espírito estando em si está consigo". Vemos aqui duas perspectivas que se confirmam. Que empolam o papel da subjectividade, do presente, do individualismo. Como se viu, muita história correu desde então. Por outro lado, a história em si, a história como ciência social, começaria então a ser discutida, por exemplo com Marx, o que também marca de um modo mais prático o início da modernidade. (a história também não acabou quando o fukoyama escreveu o livro com o mesmo nome). A modernidade em termos filosóficos fica então marcada por uma tomada de consciência irresponsável: chama ao sujeito a autoria da humanidade como conjunto e coloca o peso da história sobre o indivíduo (isto é só uma hipótese à discussão).

A relação com a vã guarda é precisamente essa. "a confusão vingou e a necessidade do regresso à ordem se foi afirmando inócua porque a ordem estava perdida". Ou "de como se lançou na confusão a relação entre o que vê e o que é visto pois é a expressão do eu que lá está" Faz-me lembrar vagamente o que está escrito antes, mas aplicado à arte (hoje maputo). Será este o fim da história da arte? Se fosse, porque não aproveitar as lições da história (com h grande) e começar já a construir um novo paradigma na forma de olhar para a arte? Não terá o tempo dos ismos acabado?

É óbvio que deve haver uma cáfila de historiadores de arte já a pensar nisso, mas por acaso agora fiquei curioso

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

nao vale a pena dizer muito sobre gaza e israel neste blog de esquerdistas e anti-sionistas declarados (onde eu me incluo). Mas vale sempre a pena ler mais uma opiniao, principalmente nao politica.

Acontece sempre uma coisa engracada quando ha uma crise na palestina: toda a gente vai reciclar velhos argumentos e reata a discussao publica comecada em 1948. Nao tenho idade para ter acompanhado a discussao desde o inicio, por isso tive de construir os meus argumentos com o que via na televisao no inicio dos anos noventa: jovens a atirar pedras contra militares, bombistas suicidas, tudo gestos heroicos ou desesperados que me levaram a respeitar muito o povo da palestina, mesmo sem nunca o ter conhecido. Dai talvez o meu anti-sionismo. Por outro lado os israelitas, uma especie de nordicos plantados ao sol, pelo menos a classe dirigente a abastada, nunca me impressionaram numa discussao politica (os 3 ou 4 que conheci, o que e' que querem?!).

Desta vez so imploro para que nao me venham mais com discussoes politicas. Existe uma resposta desproporcionada de Israel ao lancamento de uma duzia de roquetes. A seu pretexto, matam-se dezenas de criancas e centenas de adolescentes, privam-se de agua, luz, alimentos, ou assistencia medica centenas de milhares de pessoas e nos continuamos a discutir se o hamas e' uma organizacao terrorista ou quem e' que comecou primeiro. A discussao entre lideres mundiais atingiu os limites do razoavel e assemelha-se a uma conversa de surdos. E a mim sinceramente nao me interessa saber se nasceu primeiro o ovo ou a galinha. Ha um problema a resolver, e' necessario resolve-lo com os detentores de poder actuais, objectivamente, sem ressentimentos (um bocado inocente esta frase, do genero "va la, deem as maos sejam amigos").

Resumindo, o debate politico e' o derrotado desta crise. Recuso-me a debater este assunto enquanto nao for resolvido o problema humanitario e de profunda desigualdade social na palestina. "Treme, povo de israel: o ze miguel nao fala mais contigo!"

Estes comedores de alheiras ja me comecam a irritar!