terça-feira, 1 de dezembro de 2009
o canto dos pássaros
Tive ontem a oportunidade de conversar com Albert Serra, numa sessão de cinema que diz muito da cultura dita cosmopolita. A estreia deste filme aconteceu há quase um ano em Portugal, entretanto já tendo sido projectado em Viseu, e só hoje ontem chegou a Berlim. A sala, um cubículo com cerca de 50 lugares (5 filas com 10 cadeiras cada), estava vazio. 10-15 pessoas assistiram ao filme, para a conversa com o realizador ficaram 7.
E o que é que o cineasta nos contou? Aquilo de que já desconfiávamos: que nunca estudou cinema, nunca assistiu à rodagem de um filme que não um dos seus e que é o autor dos 2 melhores filmes dos últimos 30 anos em Espanha. E é verdade. Os dois filmes de Albert Serra aspiram à universalidade. Sobre o último, já muito foi dito. Se calhar interessa deixar aqui alguns pormenores técnicos. Serra filma em digital, mas faz a passagem a 35mm com todos os cuidados. Isto interessa, porque o digital tem uma profundidade de focagem muito superior, o que nos dá sequências muito pais pictóricas, onde cenário e pessoas estão dentro do plano (já não é um plano, quase um volume...) de focagem. Este pormenor, que não salta à vista senão quando nos é revelado, provocara durante o filme uma sensação de que assistiamos a uma sequência de quadros, uma forma muito inteligente de retratar um episódio pouco descrito na bíblia (cerca de três linhas), mas muito documentado visualmente ao longo da história da pintura.
No entanto, o filme 35mm não pode ser ipsis verbis o filme digital. Isso introduzir-nos-ia no mundo da video-arte, aparentemente não muito apreciada pelo realizador. Ao contrário de Honor de Cavaleria, onde interessa uma clareza e proximidade com os actores, em El Cant dels Ocels, interessa manter uma distância religiosa, cinematográfica, a lembrar os épicos do grande ecrã. Serra consegue-o monumentalmente.
Continuo a achar que o cinema de Albert Serra não é universal, apenas aspira à universalidade. Como discutimos ontem, não há maneira possível para alguém olhar para um filme como o Honor de Cavaleria e entender tudo o que se lá passa sem ter lido D. Quixote. Parece que a recepção do filme não foi tão boa fora da esfera da cultura ocidental. Pudera.
Mas eu vou mais longe. O filme capta formas de viver, caminhar, falar e de não fazer nada que não são comuns sequer a toda a europa.
Quem nunca teve uma conversa sem sentido numa pedra quente à beira rio, muito dificilmente compreenderá isso.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Cálculo crítico
Quanto ao fim das coisas, e a Marx, estou a ler finalmente o fim da história e a reparar numa série de pecados cometidos pelo autor. Primeiro, o livro é de um etnocentrismo aterrador. Fica-se com a impressão que o ocidente é todo constituído pelos seus tipos tradicionais (ou aqueles que nos quiseram fazer crer como tradicionais). Depois de se ler das virtudes das democracias liberais, fica-se com a impressão que as sociedades ocidentais são socialmente móveis, e ao mesmo tempo culturalmente estáveis. O autor pega por assim dizer numa sociedade, digamos, os franceses, e trata-os como se tivessem todos baguetes debaixo do braço a tocar concertina. Para o autor, tal como para o modelo que ele defende, não há descontentamento, migrações e exclusão social. Por isso é que história podia acabar.
Nos anos noventa ainda se vivia uma certa cegueira social, que só o terrorismo veio resolver.
De qualquer maneira, o livro tem um bom fundo, que é o de ridicularizar o caminho em direcção ao fim da história que é representado por um certo tipo de comunismo.
Ainda tenho explicar aquilo do Chostakovich. Para já fica a música.
piratas e pescaria
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
o meu pópó
estes atrasados a gozar (atente-se no mongoloide a fazer piadas dentro do seu punto gt -- o automovel e' realmente um factor de alienacao)
e eu nem de proposito a acabar de tirar uma foto de uma rua ao lado da minha casa com precisamente a mesma ideia implementada... ha 20 anos.
sábado, 14 de novembro de 2009
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
o meu comunismo é melhor que o teu
Carlos Vidal: não posso dizer que gostei de ler a sua posição. É fácil
concordar ou identificar-se com heróis de revoluções passadas. Respeito a sua
iconografia pessoal, mas gostava que me explicasse como se posiciona em
relação ao presente. Onde está a “dor”, e quem a vai provocar a quem, que
nos vai levar à “liberdade”? Refere e muito bem o “real” como parte
incontornável do seu comunismo, mas depois concentra-o em si, argumentando
que o “real” se transforma quando bate em si. Encantado quanto às
referências que apresenta, mas esta forma de representar o real parece-me
muito centrada em si e na forma como racionaliza o real. O que a mim me
parece é que o “real” já é “imprevisível”, “imperfeito” e “indecidível”
antes de embater contra si. E quando o vê a partir do monóculo do comunismo
já o está a problematizar de uma certa e determinada maneira. É o problema
de olhar através de um monóculo histórico. A história pode ensinar-nos
muito, mas ensina-nos principalmente o que queremos ler nela.
A imperfeição das relações humanas, a estrutura variável das diferentes sociedades no tempo e no espaço não permite que se assuma uma matriz teórica que as permita arrumar e resolver. Aliás, esse foi o erro de muitos regimes comunistas do passado que, atendendo ao que diz, continuam a poder ocorrer.
A democracia liberal é o /único/ regime onde as imperfeições de que fala podem ser tratadas humanamente, minimizando a dor. Felizmente que chegámos a este ponto, onde esse regime já vigora nos países onde vivemos. É no entanto um regime que exige permanente atenção e constantes iterações, mas isso deve-se precisamente ao carácter imprevisível e indecidível da realidade em si (não do choque do indivíduo contra ela).
Pelo contrário, o seu comunismo vê a realidade a partir de uma matriz determinística, necessariamente causando “dor” para corrigir as diferenças entre aquilo que o senhor acha que a realidade devia ser, e aquilo que ela é.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
compras de hoje
Não podia deixar de partilhar convosco a imagem de um dos queijos que comprei hoje. Trata-se de um Gouda meio-velho, de 12 meses. Tem pepitas de sal cristalizado naturalmente durante o processamento. Os restantes, com os quais não vos masso, foram um Bergkaese velho de 15 meses e um Camembert de cabra em fase quase líquida (e estavam 10 graus lá fora!).
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
jogada de antecipação
uma dobrada fria
Mas o que me aqui traz neste momento de indisposição corporal e cerebral, é a mixórdia requentada que me serviram ao final do dia, sob a forma de um Hamlet. Cortaram texto e inventaram passagens não existentes no original. A fronteira entre o deixado pelo escritor e o que foi introduzido a posteriori não eram evidentes para o público. Porque é que me apresentam um Hamlet e não um Joaquim, príncipe da dinamarca? Porque é que o autor era Shakespeare e não o iluminado do encenador? Regra geral, quando reparamos mais vezes na encenação do que nas palavras ditas, já houve asneira.
e andavam tão sujos em palco...
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
(no subject)
que sim, porque faz-me lembrar a ingenuidade do senhor que o afirmou
peremptoriamente, como se a democracia liberal fosse um fim em si, ou
que a humanidade não mais pudesse evoluir ideologicamente. E afirmá-lo
no culminar de uma década que viu a grande fome da Etiópia, a abertura
da China, a década perdida na América Latina e um multiplicar de guerras
em África. Será que o senhor nunca saiu de Washington? Mas adiante.
Eu dei o exemplo do blogue do dr. rui tavares, porque me pareceu
suficientemente polivalente, mas apenas em termos de estrutura
conceptual, não no aspecto.
Preto também pode ser, há muito que se pode fazer com preto, por
exemplo: http://tutorialblog.org/30-black-websites/
Quanto à história material do nosso blogue, copia-se tudo para o novo,
está claro.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
manter basicamente o esquema da página ou criar um novo? isto a propósito da mudança de sítio há tanto tempo protelada e que agora se quer fazer entrar em vigor. é que o programador depara-se com o problema fundamental do artista falhado perante a tela em branco. atendendo ao teor do que se virá a escrever por lá, eu sugeria uma página em branco, bem estruturada, e uns gatafunhos da autoria de cada um dos que pretendem continuar a apadrinhar este meio de comunicação rasca.
tipo cada um pegava numa caneta e num guardanapo de papel e escrevia umas cenas, por exemplo umas rimas ou uns gatafunhos com manchas de vinho tinto "Capataz", qualquer coisa assim, já que qme quer parecer que a totalidade dos que se apresentam na lista de autores aqui ao nosso lado direito, para quem está a ler, esquerdo para o grande irmão que está dentro do computador, vão passar ao lado da história sentados à mesa de um tasco. se alguém achar que não, guarde os seus grandes planos para si, porque esta é terra de falhados. e de qualquer modo a história até já acabou, segundo dizem.
em termos de estrutura estava a pensar numa coisa deste género:
http://ruitavares.net/blog/
claro que tudo o que são temas de desenho, cores e forma do sítio vão ser diferentes, mas gostava de fazer um sítio onde houvesse pelo menos três secções, uma com paleio, outra com fotos ou imagens e outra com uma lista de publicações, links, documentos da autoria dos autores. cada um participaria com o que tem, quem não tem nada racha lenha. estava a pensar em particular em mim próprio, que não tenho nada a partilhar, ou no duarte, que tem sempre umas fotos para mostrar, ou ainda mais no silveira, que pode postar uns trabalhos dele e tal. claro que para isso era preciso que o resto da malta começasse a participar, mas acho que isso vai acontecer qd a página estiver em linha. qt ao domínio já estou a tratar disso, fica escrotiniodefalopio.net. ou bastará escrotinio.net? é como quiserem.
se mais ninguém participar excepto eu e o meu companheiro desta luta andré da silveira rodrigues, que é para acabar de vez com a máscara do anonimato, dizia, se ninguém mais participar, olha, paciência!
sábado, 24 de outubro de 2009
Mais haveria a dizer quanto ao facto de precisarmos ou não de mais estado, se calhar precisamos é de menos estado, mas noutros sítios, o que me lembra precisamente um dos nóbeis da economia 2009, mais precisamente a senhora.
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
isto é só uma experiência
trabalho para o blogue. Uma forma fácil de *parecer* que se está a
trabalhar escrevendo um email sério de trabalho, quando na realidade se
está a escrever baboseiras num blogue vaginal. Aproximam-se tempos de
grande participação!
domingo, 4 de outubro de 2009
tudo é negociável
É um bom contraponto à situaçao que se vive neste momento em Portugal: muitos princípios, muitos princípios, mas depois esquecem-se que há um país para governar. O que nos leva a outra questao: estando o país sem governo efectivo há largos meses (entre campanha eleitoral, précampanha e governo de gestao), pergunto-me se já nao nos fazia falta um governo que nao fizesse reformas (eu seeeei, isto é uma barbaridade, mas o que querem?), que só deixasse as coisas andar, sem construir, sem legislar, o que iria em parte ao encontro da neste século já velha teoria malthusiana aplicada à macroeconomia dos limites do crescimento económico, por seu turno aplicada à ciência política. Um caro co-fundador deste pasquim indignava-se e bem com a resposta que um famoso ou menos famoso político dava a um problema x arbitrário: "legisla-se!". É a ecologia da fotocópia.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
óbvio que isto são contas de merceeiro e as coisas não funcionam assim tão facilmente. Nem os benefícios fiscais do IRS seria todos eliminados. Mas pronto, digamos um quarto da propina já pagavam...
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Os benefícios fiscais têm tudo a ver com a classe média, porque são as classes média e alta que os aproveitam. Ora, sendo a classe média em número muito superior do que alta (infelizmente), o grande buraco nas contas do estado vem da primeira. Servindo a política fiscal como arma de redistribuição da riqueza e atenuadora de diferenças sociais, não faz sentido que esteja a contribuir para mais uma. Na prática, está a servir como um incentivo à diferenciação à partida. Uma família de classe média alta passa a ter um desconto na mensalidade de um colégio privado para os seus filhos, ao passo que uma família de classe média baixa nunca poderia pagar a mensalidade desse mesmo colégio, pelo que passa a não beneficiar desse mesmo desconto. Em vez disso, vai ter de gastar o seu dinheiro em manuais escolares, que o estado não consegue pagar porque gastou dinheiro desnecessário e indutor de desigualdades a pagar o colégio do mais rico. Isto é apenas um exemplo, podemos pegar em qualquer outro. Há ainda outro argumento, é que os benefícios fiscais podem ir até cerca de 3700 euros por ano, valor que os trabalhadores pior pagos não conseguem sequer atingir em taxas de IRS. Portanto nunca poderão usufruir da totalidade do benefício fiscal. Só isto já revela a injustiça da actual política fiscal e revela a relação entre os benefícios fiscais e a classe média. E os nossos pais vão ficar a perder 3700 euros por ano. É essa a relação. No entanto quando eu estiver a trabalhar em part time (mas com contrato) e não pagar impostos suficientes para poder recuperar 3700 euros vou pelo menos ter à minha disposição melhores serviços públicos.
E não concordo com o argumento das migalhas, em parte por isto: http://resistir.info/e_rosa/beneficios_fiscais_set09.html
e em parte porque essas migalhas podem ser imediatamente desviadas para pagar livros escolares ou medicamentos.
Quanto à saúde pergunto: achas mais provável o bloco ou o PS proibirem a acumulação de funções? De resto não percebi muito bem o que querias dizer com as taxas moderadoras.
Não concordo quanto ao ensino superior. Acho que deve abrir-se ainda mais a quem quer que lá queira estudar. Prefiro mil vezes um desempregado licenciado em biologia ou gestão do que um desempregado sem nenhuma qualificação. E qual é o problema de um licenciado trabalhar na construção civil? Só uma universidade aberta a todos pode ser um mecanismo de inclusão social (e atenção que nos últimos anos ficaram por preencher milhares de vagas no ensino superior, portanto há mais oferta do que procura). Idealmente esse seria o papel do ensino básico e secundário, mas não o podendo cumprir, pelo menos que a universidade faça a sua parte. Depois, bons alunos, investigação e bolsas, isso é outra história, e aí é que não vamos lá com migalhas.
O alegado não serviu para duvidar da tua história. Eu acredito nela e até a compreendo. Quanto a saneamentos, não conheço nenhum no BE, mas não estou muito informado da sua política interna.
E, ó andré, eu também não gosto do estilo do FL, mas olha, gosto menos dos outros!
domingo, 13 de setembro de 2009
ainda sobre o louçã
http://spectrum.weblog.com.pt/arquivo/2009/09/post_23.html
Quanto à alegada alegria de FL aquando do alegado encerramento de uma alegada fábrica e consequente tristeza dos muitos trabalhadores que perderam emprego, causada pela perspectiva de mais 15 min de ataques ao governo num telejornal,
1. FL é um revolucionário. A dor que sente com injusticas sociais é a geral, nao a particular. As desigualdades, a pobreza e a exclusao causam-lhe decerto tanta angústia como a mim e a outros. Simplesmente é da sua profissao instrumentalizar o sofrimento dos outros em proveito da sua causa, tal como todos os outros políticos o fazem. Que no decorrer do seu dia a dia se alegre quando lhes aparece mais uma oportunidade de passar a sua mensagem nao deve ser único a FL
2. A direita é que inventou essa coisa da caridade
3. Já na correspondencia, Lenine se queixa das boas condicoes de vida do proletariado norte americano, pois isso nao permitiu o pleno desenvolvimento de um partido comunista nos EUA (admito, nao é o melhor exemplo...)
quarta-feira, 22 de julho de 2009
domingo, 12 de julho de 2009
é a economia! é a economia! não vale a pena falarmos de desemprego, de desigualdade, é a economia!
o problema da nossa economia foi a entrada para o euro! não é que estivessemos melhor de não tivessemos entrado para o euro, mas...
nós precisamos de robustecer o sistema de produção português para poder competir no exterior.
por que raio as pessoas insistem em comprar sempre bacalhau da noruega e gás da argélia, pá! que coisa pá!
podem ver em directo o doutore medina carreira a doutrinar sobre um país, de cor e de coração, algures aqui
http://gritameaoouvido.blogspot.com/
aiiiii os bons velhos tempos....
terça-feira, 9 de junho de 2009
amanhã
segunda-feira, 1 de junho de 2009
"portugueses! é preciso incentivar a participação ao nível local"
à construção de um centro comercial foi uma demonstração de falta de democracia profunda. Os oradores foram atacados pessoalmente e não politicamente pelo próprio presidente da câmara. Tive vergonha de ser português e viseense naquele momento. Apeteceu-me se anarquista. Pessoas competentíssimas a apresentarem sugestões e a serem ignoradas. Não, meus caros, se estivermos à espera da boa vontade dos filhos que estão agarrados ao poder, as putas nunca terão uma palavra a dizer. A mudança impõe-se estrutural: em Lisboa existe orçamento participativo porquê? Porque há legislação que o permite e se Lisboa não tivesse parecia mal por ser uma capital europeia. Agora alguém quer saber das capitais de distrito para alguma coisa? A política lisboeta ainda está vulnerável a críticas exteriores, agora Viseu ou Chaves, quem é que se interessa? É necessário uma lei que OBRIGUE os políticos a perguntar ao povo a sua opinião. Alguma vez tinha sido construido um centro comercial gigante em viseu se os comerciantes tradicionais tivessem tido voto na matéria? Alguém lucrou em viseu com mais um centro comercial? Talvez 2 ou 3 pessoas...
Chegámos a um bifurcação: o povo não se interessa pela política. Agora, ou os políticos se aproximam do povo e discutem os assuntos com as partes interessadas, ou então continuam a fazer a sua política de merda que já destruiu um país em menos de 30 anos.
Voltem, projectos SAAL, estão perdoados!
quinta-feira, 28 de maio de 2009
+1 confere
Há uma coisa engraçada nesta série de óperas que tenho visto: soam a corriqueiras, dada a frequência com que são levadas à cena. Este Tanhaeuser é apresentado semanalmente durante o último meio ano, intercalado com mais duas ou 3 óperas de Wagner, Strauss, Puccini e Verdi, todos os dias há música naquela sala, sempre tocada pela mesma orquestra (com formações diferentes, mas ainda assim...). Isto faz com que um Tanhaeuser seja um pão nosso de cada dia, com as implicações artísticas que isso comporta. Isso transparece na interpretação, quer no nível de concentração da orquestra e dos cantores, quer na atitude mais clemente do público, que perdoa falhas e valoriza muito mais o que foi bem feito do que as falhas pontuais que há sempre aqui e ali (coro desgovernado logo a seguir ao prelúdio, uma madeira desafinada em pontos chave da obra, dinâmica perfeitamente exagerada nas escalas cromáticas descendentes que pontuam toda a peça, TARA-TARa-TAra-tara-tara-tara-tara-TARA-TARa-TAra-tara-tara-tara-tara-tara-etc -- está mal!)
Mas agora a intriga: o Heinrich é um malandro e visitou o monte de Vénus durante o prelúdio. Vénus ficou visivelmente satisfeita, mas Heinrich teve de se ir embora sem sequer tomar o pequeno almoço (onde é que eu já vi isto...). Depois decide voltar, mas o pai de Vénus organiza um concurso entre cavaleiros onde o que cantar melhor o seu amor ganha os favores da germânica Afrodite. Encantados da vida por não terem de desembainhar a espada, todos cantam laudas ao amor espiritual, ai meu deus que és mais bela que a estrela da manhã, tão virgem que és minha filha que nem te posso tocar e por aí fora... Chegada a vez de Heinrich, o que se ouve é um hino ao prazer, à fertilidade, ao amor carnal, "quem anuncia o amor espiritual nunca subiu ao monte de Vénus", apregoa ele (e bem). Óbvio que o pai não gosta e, azar dos azares, por acaso até é duque daquelas terras onde todos viviam, de modo que manda o Heinrich dar uma volta, lavar os pecados a seco em Roma e se regressar vivo, então sim, pode tomar Vénus para si (tomando também Vénus Heinrich para si, porque o gosto pelos lençóis é recíproco). Há mar e mar, há ir e voltar, regressa Heinrich, já com a alma a cheirar a alfazema: o amor carnal é completo, verdadeiro e vale por si, não ficando em nada a dever ao espiritual, porque Heinrich sofre como um apaixonado, física e emocionalmente. Mas tudo acaba bem.
As conclusões são muitas, mas principalmente o que fica é uma mensagem muitíssimo romântica (do romantismo, não cor-de-rosa...) dos primeiros contactos em muitos séculos com a carne, com a paixão flamejante, erótica, que dava os primeiros passos. Pelo menos foi o que me pareceu. A soprano também era bem boa. E por aqui ficamos
segunda-feira, 25 de maio de 2009
daaassssssss
http://escrotiniodefalopio.blogspot.com/2008/03/eu-permaneco-tu-permaneces-ele.html
http://serenaoser.blogs.sapo.pt/33920.html
http://maydaylisboa2009.blogspot.com/
estas são!
as outras não!
quarta-feira, 20 de maio de 2009
segunda-feira, 27 de abril de 2009
− Impacte positivo elevado – presença de populações com baixos níveis de qualificação
(Atalaia, Padroselos, Castro Daire, Fridão, Rebordelo, Assureira, Pêro Martins,
Alvarenga);
− Impacte positivo de menor amplitude – onde se localizam os Municípios com
populações de maior nível educacional (Póvoa, Pinhosão, Asse-Dasse, Sampaio,
Girabolhos, Foz Tua, Midões, Erges);
quer dizer que os níveis educacionais de Castro Daire vão subir porque se lá vai construir uma barragem? Desde quando é que uma barragem é um investimento em educação? Podia tirar muitas conclusões, mas prefiro não o fazer, isto é cómico demais...
quinta-feira, 16 de abril de 2009
terça-feira, 14 de abril de 2009
um lohengrin do meu agrado
http://www.tagesspiegel.de/kultur/buehne/Festtage-Staatsoper;art19533,2767573
acaba assim:
"Olhe, por favor: quando parte o proximo cisne?" ehehe
mas quando um critico passa metade do artigo a escrever sobre jogadas de bastidores, como por exemplo o caso de o encenador ter chamado o Baremboim indisciplinado, ja diz muito do sujeito. acho que e' uma critica para desconsiderar.
De resto, continua com duvidas relativamente ao tenor, diz que nao sabe se ele fez aquele papel ensosso de proposito ou se nao sabe fazer mais: pergunta totalmente irrelevante se tivermos em conta que a escolha de um cantor ja e' de si uma decisao estetica e de encenacao... mas adiante, uma critica para esquecer...
sábado, 4 de abril de 2009
a responsabilidade não é de todos
Eu não sou consumidor. Ninguém é. Quando alguém me diz que o sou, sinto-me insultado. Acho que sou mais do que isso. Sou uma pessoa política, consigo perguntar-me o que é uma obra de arte, passo por grandes crises filosóficas e contribuo para o avanço da ciência. A minha vida não se resume a consumir o que outros produzem. Isso faz parte dela, num maior ou menor grau, como sempre fez parte da vida de qualquer pessoa que tenha existido. Esta é a mentira com que nos acenam. Se a aceitarmos e fizermos a união de todas as partes, então encontramos a sociedade de consumo, a qual eu não acredito que exista. É uma construção intelectual, como todos os outros qualificativos que se encontrem para uma "sociedade": tecnológica, da informação, primitiva, mercantil, teocrática, burocrática, e por aí fora. Simplesmente, esta construção foi criada para nos fazer crer que pertencemos a ela e que dela não podemos fugir. Que não podemos deixar de consumir. Isto é-nos passado de diversas formas, não foi idealizado por ninguém em particular, foi crescendo, porque na medida em que foi beneficiando determinados grupos que a foram fomentando. Acho que chamam a isto um "discurso". A construção de um paradigma na sociedade, no qual todos na generalidade concordem e o aceitem, não o questionando. Acho que é esta a mentira.
A contradição é que, mesmo partindo do princípio que sou um consumidor, i.e., que à luz da sociedade de consumo o indivíduo é considerado um consumidor, sendo as suas escolhas e acções encaradas como tal, essas mesmas pessoas me querem fazer crer que o consumidor tem uma voz para ser ouvida. Aqui chega a contradição: dizem esses senhores que essa voz toma a forma do consumo. E que o facto de eu escolher uma cenoura bio para enfiar no rabo é um acto político (pelo facto de ser bio, claro). Eis, portanto, o admirável mundo novo: já não é necessário o debate político ou de ideias sobre a sociedade, as nossas acções no super mercado bastam. Para além da necessária falta de gosto, é uma grande contradição. Se é aceite que o consumidor tem uma voz (a sua escolha entre bio e não bio, ou entre uma detergente mais ou menos poluente), essa voz seria melhor utilizada na arena política, não na dos legumes. E é isso que se tem visto. As recentes manifestações por toda a europa provam não só que estamos fartos de não ser ouvidos como também que temos coisas para dizer. E que o super mercado evidentemente não chega para as nossas ideias. Resumindo a contradição: se o consumidor é um consumidor político, necessariamente vai encontrar melhores locais para o debate do que na prateleira dos congelados.
Esta linha de pensamento acaba normalmente na culpabilização de todos, o que é a mesma coisa que dizer que acaba na desculpabilização de quem tem na verdade responsabilidades pelo estado a que chegou a qualidade da água, do ar, dos nosso recursos ecológicos em geral; ou, extrapolando para outras áreas, para o estado da economia de um país, para determinados problemas sociais, etc. É uma linha de pensamento transversal a muitos problemas: se os consumidores tiverem peso na consciência, vão culpabilizar-se, entretanto esquecendo-se de averiguar que de facto é responsável por um determinado problema. Vejamos no caso da agricultura biológica. É aceite que é benéfica para o meio ambiente e saúde pública. No entanto, a escolha é deixada ao consumidor: se ele quiser, pode por mais uns trocos não contribuir para a utilização excessiva de pesticidas, por exemplo. Assim vai feliz para casa e não precisa de se preocupar. Sabe que todos têm essa possibilidade e que, se todos forem bons samaritanos, todos vão comprar bio. Acontece que nem todos compram por diversas razões. E a acção política do consumidor acabou no momento em que ele comprou o produto. Continua a haver agricultura intensiva, sem escrúpulos ambientais, mas o que importa é que, como a escolha está lá, existe já um argumento a favor da parte interessada: a escolha existe, a responsabilidade está do vosso lado.
Atingimos o busílis da questão. O racionalismo existe para corrigir essa arbitrariedade. Não nos podemos deixar ir no laissez-faire que esta linha de pensamento implica. Decisões devem ser tomadas baseadas em argumentos racionais. Se sabemos que a agricultura intensiva prejudica irreversivelmente o meio ambiente, é necessário fazer alguma coisa por ela. Não se pode esperar que eventualmente os consumidores se decidam a ter consciência ambiental (também ainda está por provar que os consumidores consigam mudar o que quer que seja). A responsabilidade não é de todos. Quem tem responsbilidade deve agir, orientado pelo debate político e por argumentos racionais. Existem argumentos, o debate está aí, é necessário chegar a uma conclusão e agir. Refiro-me à agricultura biológica, como me poderia referir ao uso de transportes públicos, à organização do território em portugal, à utilização dos recursos piscícolas, ou a muitas outras escolhas fundamentais.
O voto e o debate político existe porque queremos não deixar coisas por fazer. Existem argumentos subjacentes a todos estes temas que podem e devem ser discutidos. Este é um tema de uma importância suprema na encruzilhada em que nos encontramos, em que a democracia perdeu muito do seu significado antigo, mas onde possibilidades de participação nunca antes vistas se tornaram banais. Por isso é que digo não ao discurso do "consumidor responsável". Primeiro porque não sou consumidor. Segundo porque a minha responsabilidade tem um alcance maior do que o consumo. Terceiro, porque há formas mais eficazes de fazer política.
segunda-feira, 2 de março de 2009
alguem pode dizer ao jpp para escrever em portugues?
diferentes do mainstream político. (diferentes do status quo politico?)
para um pack journalism (um jornalismo de pacotilha? um jornalismo de encomenda?)
By the way, convém também não esquecer (A proposito jpp, enfia os inglesismos no recto)
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
os macaquinhos nas palmeiras a trepar vejam os hipopótamos do velho ultramar
A relação com a vã guarda é precisamente essa. "a confusão vingou e a necessidade do regresso à ordem se foi afirmando inócua porque a ordem estava perdida". Ou "de como se lançou na confusão a relação entre o que vê e o que é visto pois é a expressão do eu que lá está" Faz-me lembrar vagamente o que está escrito antes, mas aplicado à arte (hoje maputo). Será este o fim da história da arte? Se fosse, porque não aproveitar as lições da história (com h grande) e começar já a construir um novo paradigma na forma de olhar para a arte? Não terá o tempo dos ismos acabado?
É óbvio que deve haver uma cáfila de historiadores de arte já a pensar nisso, mas por acaso agora fiquei curioso
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Acontece sempre uma coisa engracada quando ha uma crise na palestina: toda a gente vai reciclar velhos argumentos e reata a discussao publica comecada em 1948. Nao tenho idade para ter acompanhado a discussao desde o inicio, por isso tive de construir os meus argumentos com o que via na televisao no inicio dos anos noventa: jovens a atirar pedras contra militares, bombistas suicidas, tudo gestos heroicos ou desesperados que me levaram a respeitar muito o povo da palestina, mesmo sem nunca o ter conhecido. Dai talvez o meu anti-sionismo. Por outro lado os israelitas, uma especie de nordicos plantados ao sol, pelo menos a classe dirigente a abastada, nunca me impressionaram numa discussao politica (os 3 ou 4 que conheci, o que e' que querem?!).
Desta vez so imploro para que nao me venham mais com discussoes politicas. Existe uma resposta desproporcionada de Israel ao lancamento de uma duzia de roquetes. A seu pretexto, matam-se dezenas de criancas e centenas de adolescentes, privam-se de agua, luz, alimentos, ou assistencia medica centenas de milhares de pessoas e nos continuamos a discutir se o hamas e' uma organizacao terrorista ou quem e' que comecou primeiro. A discussao entre lideres mundiais atingiu os limites do razoavel e assemelha-se a uma conversa de surdos. E a mim sinceramente nao me interessa saber se nasceu primeiro o ovo ou a galinha. Ha um problema a resolver, e' necessario resolve-lo com os detentores de poder actuais, objectivamente, sem ressentimentos (um bocado inocente esta frase, do genero "va la, deem as maos sejam amigos").
Resumindo, o debate politico e' o derrotado desta crise. Recuso-me a debater este assunto enquanto nao for resolvido o problema humanitario e de profunda desigualdade social na palestina. "Treme, povo de israel: o ze miguel nao fala mais contigo!"
Estes comedores de alheiras ja me comecam a irritar!