segunda-feira, 27 de abril de 2009
Um dos critérios para que num estudos de impactos socio económicos de uma barragem é o Indicador de Educação. Isto foi tirado do plano de barragens do ministério das obras públicas:
− Impacte positivo elevado – presença de populações com baixos níveis de qualificação
(Atalaia, Padroselos, Castro Daire, Fridão, Rebordelo, Assureira, Pêro Martins,
Alvarenga);
− Impacte positivo de menor amplitude – onde se localizam os Municípios com
populações de maior nível educacional (Póvoa, Pinhosão, Asse-Dasse, Sampaio,
Girabolhos, Foz Tua, Midões, Erges);
quer dizer que os níveis educacionais de Castro Daire vão subir porque se lá vai construir uma barragem? Desde quando é que uma barragem é um investimento em educação? Podia tirar muitas conclusões, mas prefiro não o fazer, isto é cómico demais...
− Impacte positivo elevado – presença de populações com baixos níveis de qualificação
(Atalaia, Padroselos, Castro Daire, Fridão, Rebordelo, Assureira, Pêro Martins,
Alvarenga);
− Impacte positivo de menor amplitude – onde se localizam os Municípios com
populações de maior nível educacional (Póvoa, Pinhosão, Asse-Dasse, Sampaio,
Girabolhos, Foz Tua, Midões, Erges);
quer dizer que os níveis educacionais de Castro Daire vão subir porque se lá vai construir uma barragem? Desde quando é que uma barragem é um investimento em educação? Podia tirar muitas conclusões, mas prefiro não o fazer, isto é cómico demais...
quinta-feira, 16 de abril de 2009
terça-feira, 14 de abril de 2009
um lohengrin do meu agrado
Stefan Herheim foi o encenador do nosso lohengrin. Parece que esteve no ano passado em Bayreuth. A critica foi muito dura nos jornais, mas nao concordo tanto que a encenacao tenha sido tao disparatada quanto dizem...
http://www.tagesspiegel.de/kultur/buehne/Festtage-Staatsoper;art19533,2767573
acaba assim:
"Olhe, por favor: quando parte o proximo cisne?" ehehe
mas quando um critico passa metade do artigo a escrever sobre jogadas de bastidores, como por exemplo o caso de o encenador ter chamado o Baremboim indisciplinado, ja diz muito do sujeito. acho que e' uma critica para desconsiderar.
De resto, continua com duvidas relativamente ao tenor, diz que nao sabe se ele fez aquele papel ensosso de proposito ou se nao sabe fazer mais: pergunta totalmente irrelevante se tivermos em conta que a escolha de um cantor ja e' de si uma decisao estetica e de encenacao... mas adiante, uma critica para esquecer...
http://www.tagesspiegel.de/kultur/buehne/Festtage-Staatsoper;art19533,2767573
acaba assim:
"Olhe, por favor: quando parte o proximo cisne?" ehehe
mas quando um critico passa metade do artigo a escrever sobre jogadas de bastidores, como por exemplo o caso de o encenador ter chamado o Baremboim indisciplinado, ja diz muito do sujeito. acho que e' uma critica para desconsiderar.
De resto, continua com duvidas relativamente ao tenor, diz que nao sabe se ele fez aquele papel ensosso de proposito ou se nao sabe fazer mais: pergunta totalmente irrelevante se tivermos em conta que a escolha de um cantor ja e' de si uma decisao estetica e de encenacao... mas adiante, uma critica para esquecer...
sábado, 4 de abril de 2009
a responsabilidade não é de todos
Para contextualizar, vem isto a propósito de nos últimos tempos me terem aborrecido com a faceta política do consumidor. Primeiro, querem-me convencer que sou consumidor. Depois, que eu, como consumidor, posso tomar decisões de raiz política. Ora, isto encerra uma mentira e uma contradição.
Eu não sou consumidor. Ninguém é. Quando alguém me diz que o sou, sinto-me insultado. Acho que sou mais do que isso. Sou uma pessoa política, consigo perguntar-me o que é uma obra de arte, passo por grandes crises filosóficas e contribuo para o avanço da ciência. A minha vida não se resume a consumir o que outros produzem. Isso faz parte dela, num maior ou menor grau, como sempre fez parte da vida de qualquer pessoa que tenha existido. Esta é a mentira com que nos acenam. Se a aceitarmos e fizermos a união de todas as partes, então encontramos a sociedade de consumo, a qual eu não acredito que exista. É uma construção intelectual, como todos os outros qualificativos que se encontrem para uma "sociedade": tecnológica, da informação, primitiva, mercantil, teocrática, burocrática, e por aí fora. Simplesmente, esta construção foi criada para nos fazer crer que pertencemos a ela e que dela não podemos fugir. Que não podemos deixar de consumir. Isto é-nos passado de diversas formas, não foi idealizado por ninguém em particular, foi crescendo, porque na medida em que foi beneficiando determinados grupos que a foram fomentando. Acho que chamam a isto um "discurso". A construção de um paradigma na sociedade, no qual todos na generalidade concordem e o aceitem, não o questionando. Acho que é esta a mentira.
A contradição é que, mesmo partindo do princípio que sou um consumidor, i.e., que à luz da sociedade de consumo o indivíduo é considerado um consumidor, sendo as suas escolhas e acções encaradas como tal, essas mesmas pessoas me querem fazer crer que o consumidor tem uma voz para ser ouvida. Aqui chega a contradição: dizem esses senhores que essa voz toma a forma do consumo. E que o facto de eu escolher uma cenoura bio para enfiar no rabo é um acto político (pelo facto de ser bio, claro). Eis, portanto, o admirável mundo novo: já não é necessário o debate político ou de ideias sobre a sociedade, as nossas acções no super mercado bastam. Para além da necessária falta de gosto, é uma grande contradição. Se é aceite que o consumidor tem uma voz (a sua escolha entre bio e não bio, ou entre uma detergente mais ou menos poluente), essa voz seria melhor utilizada na arena política, não na dos legumes. E é isso que se tem visto. As recentes manifestações por toda a europa provam não só que estamos fartos de não ser ouvidos como também que temos coisas para dizer. E que o super mercado evidentemente não chega para as nossas ideias. Resumindo a contradição: se o consumidor é um consumidor político, necessariamente vai encontrar melhores locais para o debate do que na prateleira dos congelados.
Esta linha de pensamento acaba normalmente na culpabilização de todos, o que é a mesma coisa que dizer que acaba na desculpabilização de quem tem na verdade responsabilidades pelo estado a que chegou a qualidade da água, do ar, dos nosso recursos ecológicos em geral; ou, extrapolando para outras áreas, para o estado da economia de um país, para determinados problemas sociais, etc. É uma linha de pensamento transversal a muitos problemas: se os consumidores tiverem peso na consciência, vão culpabilizar-se, entretanto esquecendo-se de averiguar que de facto é responsável por um determinado problema. Vejamos no caso da agricultura biológica. É aceite que é benéfica para o meio ambiente e saúde pública. No entanto, a escolha é deixada ao consumidor: se ele quiser, pode por mais uns trocos não contribuir para a utilização excessiva de pesticidas, por exemplo. Assim vai feliz para casa e não precisa de se preocupar. Sabe que todos têm essa possibilidade e que, se todos forem bons samaritanos, todos vão comprar bio. Acontece que nem todos compram por diversas razões. E a acção política do consumidor acabou no momento em que ele comprou o produto. Continua a haver agricultura intensiva, sem escrúpulos ambientais, mas o que importa é que, como a escolha está lá, existe já um argumento a favor da parte interessada: a escolha existe, a responsabilidade está do vosso lado.
Atingimos o busílis da questão. O racionalismo existe para corrigir essa arbitrariedade. Não nos podemos deixar ir no laissez-faire que esta linha de pensamento implica. Decisões devem ser tomadas baseadas em argumentos racionais. Se sabemos que a agricultura intensiva prejudica irreversivelmente o meio ambiente, é necessário fazer alguma coisa por ela. Não se pode esperar que eventualmente os consumidores se decidam a ter consciência ambiental (também ainda está por provar que os consumidores consigam mudar o que quer que seja). A responsabilidade não é de todos. Quem tem responsbilidade deve agir, orientado pelo debate político e por argumentos racionais. Existem argumentos, o debate está aí, é necessário chegar a uma conclusão e agir. Refiro-me à agricultura biológica, como me poderia referir ao uso de transportes públicos, à organização do território em portugal, à utilização dos recursos piscícolas, ou a muitas outras escolhas fundamentais.
O voto e o debate político existe porque queremos não deixar coisas por fazer. Existem argumentos subjacentes a todos estes temas que podem e devem ser discutidos. Este é um tema de uma importância suprema na encruzilhada em que nos encontramos, em que a democracia perdeu muito do seu significado antigo, mas onde possibilidades de participação nunca antes vistas se tornaram banais. Por isso é que digo não ao discurso do "consumidor responsável". Primeiro porque não sou consumidor. Segundo porque a minha responsabilidade tem um alcance maior do que o consumo. Terceiro, porque há formas mais eficazes de fazer política.
Eu não sou consumidor. Ninguém é. Quando alguém me diz que o sou, sinto-me insultado. Acho que sou mais do que isso. Sou uma pessoa política, consigo perguntar-me o que é uma obra de arte, passo por grandes crises filosóficas e contribuo para o avanço da ciência. A minha vida não se resume a consumir o que outros produzem. Isso faz parte dela, num maior ou menor grau, como sempre fez parte da vida de qualquer pessoa que tenha existido. Esta é a mentira com que nos acenam. Se a aceitarmos e fizermos a união de todas as partes, então encontramos a sociedade de consumo, a qual eu não acredito que exista. É uma construção intelectual, como todos os outros qualificativos que se encontrem para uma "sociedade": tecnológica, da informação, primitiva, mercantil, teocrática, burocrática, e por aí fora. Simplesmente, esta construção foi criada para nos fazer crer que pertencemos a ela e que dela não podemos fugir. Que não podemos deixar de consumir. Isto é-nos passado de diversas formas, não foi idealizado por ninguém em particular, foi crescendo, porque na medida em que foi beneficiando determinados grupos que a foram fomentando. Acho que chamam a isto um "discurso". A construção de um paradigma na sociedade, no qual todos na generalidade concordem e o aceitem, não o questionando. Acho que é esta a mentira.
A contradição é que, mesmo partindo do princípio que sou um consumidor, i.e., que à luz da sociedade de consumo o indivíduo é considerado um consumidor, sendo as suas escolhas e acções encaradas como tal, essas mesmas pessoas me querem fazer crer que o consumidor tem uma voz para ser ouvida. Aqui chega a contradição: dizem esses senhores que essa voz toma a forma do consumo. E que o facto de eu escolher uma cenoura bio para enfiar no rabo é um acto político (pelo facto de ser bio, claro). Eis, portanto, o admirável mundo novo: já não é necessário o debate político ou de ideias sobre a sociedade, as nossas acções no super mercado bastam. Para além da necessária falta de gosto, é uma grande contradição. Se é aceite que o consumidor tem uma voz (a sua escolha entre bio e não bio, ou entre uma detergente mais ou menos poluente), essa voz seria melhor utilizada na arena política, não na dos legumes. E é isso que se tem visto. As recentes manifestações por toda a europa provam não só que estamos fartos de não ser ouvidos como também que temos coisas para dizer. E que o super mercado evidentemente não chega para as nossas ideias. Resumindo a contradição: se o consumidor é um consumidor político, necessariamente vai encontrar melhores locais para o debate do que na prateleira dos congelados.
Esta linha de pensamento acaba normalmente na culpabilização de todos, o que é a mesma coisa que dizer que acaba na desculpabilização de quem tem na verdade responsabilidades pelo estado a que chegou a qualidade da água, do ar, dos nosso recursos ecológicos em geral; ou, extrapolando para outras áreas, para o estado da economia de um país, para determinados problemas sociais, etc. É uma linha de pensamento transversal a muitos problemas: se os consumidores tiverem peso na consciência, vão culpabilizar-se, entretanto esquecendo-se de averiguar que de facto é responsável por um determinado problema. Vejamos no caso da agricultura biológica. É aceite que é benéfica para o meio ambiente e saúde pública. No entanto, a escolha é deixada ao consumidor: se ele quiser, pode por mais uns trocos não contribuir para a utilização excessiva de pesticidas, por exemplo. Assim vai feliz para casa e não precisa de se preocupar. Sabe que todos têm essa possibilidade e que, se todos forem bons samaritanos, todos vão comprar bio. Acontece que nem todos compram por diversas razões. E a acção política do consumidor acabou no momento em que ele comprou o produto. Continua a haver agricultura intensiva, sem escrúpulos ambientais, mas o que importa é que, como a escolha está lá, existe já um argumento a favor da parte interessada: a escolha existe, a responsabilidade está do vosso lado.
Atingimos o busílis da questão. O racionalismo existe para corrigir essa arbitrariedade. Não nos podemos deixar ir no laissez-faire que esta linha de pensamento implica. Decisões devem ser tomadas baseadas em argumentos racionais. Se sabemos que a agricultura intensiva prejudica irreversivelmente o meio ambiente, é necessário fazer alguma coisa por ela. Não se pode esperar que eventualmente os consumidores se decidam a ter consciência ambiental (também ainda está por provar que os consumidores consigam mudar o que quer que seja). A responsabilidade não é de todos. Quem tem responsbilidade deve agir, orientado pelo debate político e por argumentos racionais. Existem argumentos, o debate está aí, é necessário chegar a uma conclusão e agir. Refiro-me à agricultura biológica, como me poderia referir ao uso de transportes públicos, à organização do território em portugal, à utilização dos recursos piscícolas, ou a muitas outras escolhas fundamentais.
O voto e o debate político existe porque queremos não deixar coisas por fazer. Existem argumentos subjacentes a todos estes temas que podem e devem ser discutidos. Este é um tema de uma importância suprema na encruzilhada em que nos encontramos, em que a democracia perdeu muito do seu significado antigo, mas onde possibilidades de participação nunca antes vistas se tornaram banais. Por isso é que digo não ao discurso do "consumidor responsável". Primeiro porque não sou consumidor. Segundo porque a minha responsabilidade tem um alcance maior do que o consumo. Terceiro, porque há formas mais eficazes de fazer política.
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