quarta-feira, 26 de março de 2008

EU PERMANECO, TU PERMANECES, ELE PERMANECE

Desvendei um dos misterios da minha vida: nao existe 3a pessoa singular do presente indicativo do verbo demolir. Tambem nao existe primeira. Eu demolo, ou demulo, tu demoles, ele demola, realmente nao podia ser... Isto a proposito do direito ao patrimonio. Eu acho que quando nasco, tenho direito a que TUDO o que eu vi e achei que era patrimonio natural ou arquitectonico permaneca quando eu morrer. Quando demolem (eheh), quando destroem, botam abaixo um edificio como a sede da pide da antonio maria cardoso, a minha cidade fica amputada. A minha memoria tambem. Nao porque seja o edificio da ex-pide ou o ex-edificio da pide ou o edificio onde a pide estava, ou existia, ou de onde ela emanava. Simplesmente porque e' um edificio, e' antigo, e' velho e a cidade de lisboa e' isso mesmo: velha. Sinto que me podia amarrar ao sinal de proibido estacionar la 'a frente para impedir que a casa venha abaixo, como fazem os malucos que se amarram 'as arvores. O mesmo se aplica 'as barragens, ao novo plano de destruicao da entidade com uma carga social mais forte da natureza: os rios. Nao me venham com biodiversidade, natureza, etc. Um rio e' um rio e foi feito para fluir, escorrer, escoar, despejar agua, transportar e nao para ter uma parede de betao de 10 em 10 km. Simplesmente nao faz sentido, esta' bem? E' como a historia da nossa senhora de fatima, ela nao apareceu a voar em cima da azinheira, porque nao apareceu a voar em cima da azinheira. Ha coisas que so mentes verdadeiramente imaginativas conseguem conceber. Por exemplo, imaginem o atrasado mental que foi dar uma volta pela costa alentgejana e se lembrou: ei, ja viram o que ficava mesmo bem aqui? era 20 000 camas e 3 campos de golfe, ficava mesmo a matar. Que tipo de pessoa e' pensou nisto? O problema mais actual da epistemologia e' este. Os systems of thought to Foucault tem de ser revistos para compreender qual a episteme que permite que isto aconteca. Quando e' que alguem pa'ra o desenvolvimento? Eu quero que o meu pais fique, que permaneca o meu pais de cada vez que me passeio por ele. Porque e' que me negam esse direito? Porque e' que isso nao e' salvaguardado pela minha constituicao? E se e', porque e' que na pratica ninguem respeita? PORQUE E' QUE E' PRECISO CONSTRUIR SEMPRE MAIS, DESENVOLVER SEMPRE MAIS, ALTERAR OS QUE SIMPLESMENTE ESTA'???? Ha-de haver um limite e penso que ja la estamos a chegar. A curva de crescimento do homem atingiu o seu patamar, the tragedy of the commons ja atingiu a maioria das pessoas do mundo. E' so preciso perceber isso e parar, tratar dos feridos e enterrar os mortos e deixar lisboa em paz, nao destruir, nao construir, simplesmente tornar habitavel. Tenho a sensibilidade ferida, estou proximo do accao radical pelo simples permanecer.

1 comentário:

o de moskva disse...

Salvo as devidas distâncias a qualquer tipo de diarreia fundamentalista ecológica ou derivada(do estilo pinturas rupestres subaquáticas e passarinhos faíscados em redes de alta tensão),pelo qual nutro um desprezo intelectual especial,não só subscrevo inteiramente este ensaio como estou disponivel para me amarrar a um desses sinais. Literalmente.