sábado, 23 de dezembro de 2017

Não nos despediremos de 2013 sem algum optimismo

Voltaire, que era um senhor visivelmente engraçado, escreveu umas quantas coisas. Aliás, bastantes destes sujeitos que rondaram os tempos de Voltaire eram indivíduos visivelmente engraçados que escreveram umas quantas coisas. O que ficou não é de somenos. E o optimismo faz parte do conjunto. Tudo será pelo melhor, como bem nos ensina a evolução económica actual. Afinal, é no futuro que se encontra a eternidade. Um dos problemas irresolúveis, hoje, sintetiza-se da seguinte forma, e cito mais ou menos um pivot qualquer: o comportamento da economia é também responsabilidade do anterior governo, ou não é assim? De um lado e de outro da resposta balbucia-se. Um deles, se efectivamente comprometido com a resposta que encontrou, socorrer-se-ia de certo de Voltaire.

"Pangloss explicava-lhe como tudo corria pelo melhor. Mas Jacques não era da mesma opinião:
- Decerto -  dizia ele - que os homens corromperam um pouco a Natureza, porque não nasceram lobos. Deus não lhes deu nem canhões de vinte e quatro nem baionetas, e eles imaginaram os canhões e as baionetas para se destruírem. Eu poderia pôr no mesmo plano as bancarrotas e a justiça que se apropria dos bens dos falidos para frustar os credores.
- Tudo isso era indispensável - replicava o doutor zarolho - e as desgraças particulares fazem o bem geral. De modo que quanto mais desgraças particulares, mais tudo irá bem.
Enquanto ele discorria, o ar escureceu, os ventos sopraram dos quatro cantos de mundo, e o barco foi assaltado pela mais horrorosa das tempestades, à vista do porto de Lisboa."

Cândido e o Optimismo, Voltaire.

Jacques e Pangloss chegavam a Lisboa a 1 de Novembro de 1755. O tempo da narrativa não é exactamente esse, sendo a diferença de poucos anos. O tempo de escrita é posterior, claro. Depois da chegada de Jacques e Pangloss construiu-se a Baixa Pombalina, não sem Jacques se afogar à entrada do Tejo e Pangloss morrer queimado. Tudo pelo melhor, certamente. Como certo é que erigir uma cidade sobre escombros é infinamente mais fácil.


domingo, 16 de abril de 2017

"No cinema, Debord propôs-se sempre nada fazer do que nele se fazia, fazendo quanto nele se não fazia. Entre 1952 e 1994, cada um dos seus filmes - bem concebidos, agravando-lhe o caso - confirmou esta detestável ambição.
Como é sabido, a sociedade deixou de ter «artistas malditos» a partir da destruição da própria arte, a isso sucedendo a promoção de qualquer fulano de boa vontade ao estatuto de pequeno funcionário da cultura. Tendo o negativo sido o cinema ainda menos apreciado que no resto, caso Debord nunca tivesse feito filmes talvez nem houvesse nenhum cineasta maldito. O mundo respondeu aos seus excessos considerando-o perfeitamente insignificante."


Esta entrada é rigorosa. Não vi o filme.


In girum imus nocte et consumimur igni.


 movemo-nos na noite sem saída e somos devorados pelo fogo