quarta-feira, 17 de outubro de 2012

reclamação

 Hoje, pela manhã, fui obrigado a reclamar. E reclamei. Nestes termos. Parece que terei que ser mais contundente. Coloco aqui o texto porque me diverti enormemente a escrevê-lo, não obstante a chuva que caía lá para dentro.

Cara --------------,

Desde 27 de Setembro brilhou sobre Lisboa um sol estival que aos poucos ia convidando à manta, anunciando a tempestade que bruscamente termina os momentos mais serenos.

Desde 27 de setembro, todas as manhãs entrava o sol em abundância pelas janelas a nascente, iluminando primeiro o soalho, que desumidificava, e entrando pelo quarto seguinte, onde me despertava lenta mas eficazmente. Como cumprindo um rito, levantava-me, dirigia-me à janela e fruía da definição que os seus raios emprestavam à janela, à rua e à fachada do nº ---- da Av. -----------------. Em todas estas manhãs, senti uma ligação quase mística à natureza, elo que se diria impossível no centro da urbe lisboeta, vendo desenhada à minha frente uma rua de copas de árvore e, um pouco acima da minha cabeça, o lento definhar de um pequeno arbusto que oferecia os últimos frutos do ano, alimentados que eram pela raiz que, teimosamente, se enfiava pelo algeroz de onde brota o caule e as folhas e os frutos. Ao seu lado, uma peúga observava as gentes que se decidem, diariamente, a almoçar pelas esplanadas espalhadas pelo calcetado da avenida.

Ora, como o sol estival anunciava, hoje, 17 de outubro, enquanto se levantava o sol, abateu-se sobre Lisboa uma chuva insistente e grossa. Ao invés de ser despertado pelos raios de sol abundantes, acordei com a harmonia rítmica de gotas que, não encontrando a saída que as águas pluviais exigem, dirigidas que são até ao Tejo pelos canos que as enformam, pingavam à minha janela. É certo, dizia-nos a Física, que dois corpos não podem ocupar um mesmo espaço, ideia que tem vindo a ser sucessivamente remodelada. Todavia, esta reformulação da ciência não testou ainda a possibilidade de um arbusto, uma peúga e águas pluviais ocuparem um mesmo espaço num mesmo algeroz. A água, massa informe e desenrascada e pouco preocupada com os desenvolvimentos da ciência, logo encontrou uma alternativa. Se o arbusto resistia, se a peúga teimava em não lhe dar passagem, virou-se para dentro, para o outro lado da fachada. Infelizmente, o outro lado da fachada é, igualmente, o outro lado da janela definida pelo sol. E, o que é realmente dramático, outro lado da janela é a divisão onde uma secretária sustenta um computador e um monitor e mais material perecível, que apenas tolera água quando não pluvial e em doses muito controladas.

Despertado que fui pelo ritmado das gotas, depressa acudi ao material informático em apuros, retirando-o daquela divisão a tempo da sua sobrevivência à chuva que caía dentro de portas. O mesmo não se poderá dizer da secretária, que conto me seja ressarcida, uma vez que os poucos golpes de x-acto que tinha abriram um caminho à água que embuchou o composto de madeira que lhe dava corpo e forma. E enquanto retirava e movia móveis, que por isso assim se apelidam, reparei no frondoso conjunto de fungos que alegremente se distendiam ao longo do rodapé, certamente animados pela água que os revigorava depois de 20 dias de seca. A humidade, que a eles lhes convém, irá certamente corroer o soalho só agora seco e já novamente fustigado por nova onda de líquidos revoltosos que não se sabem enfiar por onde devem, enquanto espalha novas e frondosas manchas amareladas pelas paredes e tecto da infeliz divisão. Por certo, o tom quase sépia que ganham com o passar do tempo, dá uma outra graça às paredes, ainda do tempo da fotografia a uma cor, rivalizando a imagem do que foi fotografado a sépia com o que é agora humedecido com a mesma cor.

Com o tempo, não só a fotografia ganhou outra gama cromática como os contratos se fizeram mais extensos tentando fazer obedecer e regular os deveres e direitos de todas as partes. Pelo meu lado, recordo-lhe que o arbusto se desenvolve há largo tempo, podendo hoje dar fruto, e que o algeroz foi dado como inútil para os fins que se lhe destinaram há já bastante tempo, embora acabe por dinamizar a fachada do ---, oferecendo outra graça aos olhos. Dá-se o caso, pois, de o cano não ter sido adossado ao edifício por mero deleite visual. Tinha uma função, função essa negada pelo arbusto e pela peúga, função essa comprometida há muito tempo, comprometimento que, por sua vez, lhe foi anunciado atempadamente.

Resta-me, portanto, esperar que as suas missivas a quem possa resolver os problemas que se adensam e acumulam - tudo por causa de um arbusto e uma peúga, veja-se - cheguem a bom porto, sejam lidas e cumpridas e que a despropositada situação - já há muito deixou de ser acidente, todos contávamos com ela - seja resolvida. Lembro-lhe, mais uma vez, que o contrato exibe muitos artigos, incluindo os 5 pontos do 1074 do Código Civil totalmente imputados a quem habita esta casa. Mas, por ter duas partes, não vendo cumprida a outra, irei verificar se sou obrigado a cumprir a minha se a chuva ritmada continuar a cair sobre o soalho - e já não sobre a secretária que retirei há pouco, infelizmente já completamente molhada.

Espero não a ter maçado com esta prosa na mesma medida em que me maça a mim esta chuva.

Os melhores cumprimentos,
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