quarta-feira, 5 de setembro de 2012

aqui se assinala a polémica em curso que está a apaixonar portugal. nao, nao é o preco certo do witsel versus o preco errado do hulk. tem-se andado isso sim a discutir o carácter verdadeiro do estado novo "sem complexos" na forma da polémica entre o manuel loff e o rui ramos. ora nao sendo eu historiador, basta ler as contribuicoes de ambos para se perceber que o manuel loff é muito mais simpático. quanto ao resto atribuo a grande exaltacao ao facto (nao verificado) de o adversario Rui Ramos, ou como lhe tem chamado, RR, ser caso minoritário entre os historiadores de direita: publicou um livro que até teve sucesso. tem vindo tambem ao de cima uma grande simpatia pelo estado novo, explicada por uma análise descomplexada do mesmo, por parte dos internautas mais insuspeitos. será essa análise fruto de uma ignorancia relativamente ao destino dos mocambicanos massacrados em Tete pela PIDE em 1972 ou pelos mártires de Mueda, isto para nos ficarmos pelas ex-colónias e para nao falar do assassinato do moderado humberto delgado. que é para nem falar de todos os comunistas que morreram ou foram deportados para o tarrafal, senao ainda me acusam de ser defensor de um totalitarismo. ou os republicanos. ou os sindicalistas. e isto até 1974? onde estavam as democracias liberais da europa em 1974? decreto que nao estavam a massacrar pretos nas províncias ultramarinas. mas nós nisso sempre fomos muito à frente. bom, é melhor parar, senao comecamos a ter uma discussao demasiado complexada...

1 comentário:

sb disse...

por acasos desta vida li umas coisas do senhor RR. curiosamente as mesmas iniciais da rádio renascença. aí está o homem novo e tudo.

atentamente só li o volume na história dirigida pelo josé mattoso.

não sendo profundo conhecedor da coisa, diria que muito do quis provavelmente pode ser interpretado como o faz. e muito não estará longe do que nos pode horrorizar e, eventualmente, comparar regimes desdramatizando um, pós 1926 e dramatizando outro, antes de 1926.

mas tudo isso é bonito e fantástico mas não toca no que é essencial - em nada, escamoteando torturas e mais do que aqui dizes - que é o que o programa político para o país implica.

não é preciso recorrer à lágrima para perceber que entre um e outro há diferenças gritantes. basta olhar o ensino primário.

também não é preciso afundar-se na relativização do sufrágio contrastando-o com a universalidade que mais tarde lhe foi concedida - e que não existiu longos e largos anos após 1926. e, mesmo que fosse universal após 1926, não é preciso recorrer à fantochada que eram as eleições. basta saber como, após 1933, era pensada a educação e como se pensava a mobilidade social.

que rui ramos era e é um historiador de direita, todos sabemos. o que eu queria saber é que direita é essa. conservadora ou liberal? é que também não colhe a comparação com outras democracias da europa de leste em que não é relativizado o termo democracia do mesmo modo que o é o termo fascismo. se a primavera de praga ocorreu numa democracia, então todos os 48 anos de ditadura ocorreram sob um regime fascista, que - e parece que há razões para crer nisso, formais que sejam - não era.

que tudo isto surja num momento onde se revigora a boa lembrança dos outros tempos, também não é nada de extraordinário. todos, sempre, encontraram a sua idade do ouro, ou a do bronze, ou a dos heróis. o presente, que afinal é o fim da história, é que é a besta.

de rui ramos não esperaria outra coisa. em boa verdade, só lia as páginas daquele livro correspondentes ao pós-25 de abril. lancei uma gargalhada quando cheguei aos anos em que vivi e fechei o livro.

o comprometimento ideológico de qualquer trabalho é uma certeza. existe e há que assumi-lo. mesmo nisto, rui ramos não escapa àquela que é a direita que em portugal conhecemos.

mas, ao não o assumir - que pelo que sei não fez, mas posso estar enganado - rui ramos dá mais um passo dentro da normalidade: estamos num tempo pós-ideológico.

felizmente, o tempo não é igual para todos e o pós-ideológico é como o fim da história. dá jeito. a espaços. a todos.

mais uma vez, rasura-se o tempo, rasuram-se as ideias e faz-se crer num presente que é o que é e tem que ser forçosamente e drasticamente alterado em favor de um mundo melhor e mais perfeito. um mundo ideal.

isto, por si só, penso, atira abaixo a crítica às democracias de leste e a crença no pós-ideológico.

o grave é que essa crença redunde na relativização de 48 anos de ditadura. sem mais explicações, é esse o ponto de fuga. é esse um passo entre nós, no presente, e o ideal.

presumo que, com isto, esteja a ofender rui ramos. se assim o for, ainda bem, significa que não é assim. e que aquela relativização foi um lapso voluntarioso na perspectiva de dar alguma novidade à historiografia nacional e essa é sempre bem-vinda. desde que não resulte em sê-lo apenas por o ser ou, pior, num alongamento sobre um tema qualquer completamente enviesado pela subjectividade de quem escreve.

para isso temos tascas.