domingo, 10 de junho de 2012

ninguém duvida daquilo que foi brilhantemente exposto pelo zizek. mas agora vou armar-me em contra-poder do contra-poder e fazer uma daquelas destrinças que o poder bem gosta para simplificar tudo e falar de inevitabilidades: isso é uma questão de copo meio vazio ou copo meio cheio.

a tensão entre suspensão da democracia e o seu aprofundar, bem como a tensão entre burguesia e proletariado - formulação com a qual não concordo, mas que nos dá uma distinção entre uns e outros capaz de ser operacionalizada de modo simples - não são de hoje e nenhum dos pólos é um dado garantido.

e estes dois parágrafos servem apenas para introduzir duas ou três questões acerca da ue.

uma primeira parte da evidência que se a crise dos últimos anos demonstrou o real poder do eixo franco-alemão, também o expôs evidentemente perante todos.

a outra parte parte da evidência que, de um momento para o outro, todos os canais de informação ficaram pejados de dados sobre a política interna de diversos países da europa e houve um interesse real em discuti-los para lá da nota de rodapé papandreous ganhou as eleições na grécia.

a terceira é a evidência perante todos, embora isso fosse discutido há largos anos de modo mais restrito, que o euro carrega problemas e que a ue está a ser construída de cima para baixo.

uma das conclusões que se pode retirar é a de que estão agora a começar a estar reunidas mais condições para haver um real aprofundamento da democracia na europa, sendo a primeira, desde logo, o interesse que as populações têm que revelar pelos problemas europeus e a informação que obtêm sobre eles.

e a informação é insuficiente? é. e a discussão nos meios de comunicação está orientada? pode estar. e o discurso oficial não aponta nesse sentido? pois claro que não. mas não nos podemos esquecer que o próprio parlamento europeu envia várias mensagens para fora questionando as tomadas de decisões que não passam por lá.

concluindo: estas tensões existem, e no dia em que se aprofundar a democracia na ue e o euro deixar de exibir os problemas que estão à vista de todos - se algum dia isso for feito - continuarão a existir. e o nosso trabalho enquanto cidadãos terá que ser o mesmo.

e um deles passa por não deixar que a crise internacional, desmontada em crise europeia e depois em crises nacionais, o possa ser. o nosso trabalho é, por exemplo, continuamente lembrar o que levou à crise de 2008 e não deixar que o discurso feche a porta ao que foi. porque senão, lá teremos outro rajoy a dizer perante as câmaras, como hoje de manhã, que as famílias têm que fazer cortes, que as empresas têm que fazer cortes, que as administrações regionais têm que fazer cortes e toma lá entre 40 e 100 mil milhões para a banca.

e ninguém duvida que o número que apresentou - que as administrações regionais gastaram mais 90 mil milhões de euros - é um número perigoso. a ser verdade, é grave. e também ninguém dúvida do princípio de verdade, se quisermos, da sua premissa fundamental: não podemos gastar mais do que ganhamos. só existe um problema nesta formulação, é que no final da frase deveria estar: continuamente.

tudo o resto a história ensinou-nos. há alturas em que sim, alturas em que não e alturas em que talvez.

o que não se pode mesmo é comprometer quase 500 milhões de pessoas para safar o estapafúrdio de uns quantos mil. e aí, não há alturas em que sim ou alturas em que talvez.

1 comentário:

Anónimo disse...

Isto no fim de contas só tem uma solução, e é à francesa: vamos lá ver quem são esses não sem quantos mil, abatam-se e sejam-lhes confiscados os bens!