domingo, 15 de abril de 2012

então, até ao regresso!

Que sucede quando alguns pintam animais nas paredes de grutas, quando outros fazem vibrar em cadência cordas retesadas ou o ar soprado nos tubos, quando outros ainda contam histórias numa língua especialmente trabalhada, reinventada? Sucede que se fazem proposições de sentido, sucede que alguns, pelo menos, sentem compreender ou experimentar que tais proposições são efectivamente as suas e que eles o não teriam sabido se elas não tivessem sido feitas.

Jean-Luc Nancy

Nas actuais “democracias”, que tendem a limitar-se à promoção de um sistema económico assente na competitividade, a arte – que desde sempre atesta o humano do homem, a sua capacidade de criar enquanto capacidade de ser singular e de viver em comum – é posta em perigo por um conjunto de mecanismos, os mesmos que são usados para forçar o consumo de qualquer tipo de mercadorias, nomeadamente, os da indiferenciação entre informação, propaganda e publicidade, sendo que estas últimas tendem a ser simples técnicas impositivas de comportamentos, criando elas próprias o ambiente propício para se tornarem cada vez mais poderosas. É assim que proliferam os chamados criativos e as “indústrias criativas” (...) O controlo dos indivíduos por um Estado “democrático”, através do qual o capital exerce o seu poder, não decorre de meios directos de controlo mas da cumplicidade entre a gestão centralizada de certos recursos e serviços e o poder do marketing detido pelos média, que são o principal veículo do entretenimento (...) o controlo é permanente: a formação de “públicos”, contínua e vinda de todos os lados, abole o silêncio e o espanto pela saturação do quotidiano por músicas, imagens, “notícias” e jogos que não só produzem identificações automáticas como introduzem compulsões ao exercício de poder, correspondentes a um tudo-é-possível-e-tudo-se-equivale. Estão em perigo o sentir e o pensar, motivo pelo qual a resposta singular que a arte convoca é rasurada pelas instituições que pretendem fazê-la render, moldá-la às circunstâncias, que se resumem ao lucro.

(...)

Nada se deve pedir à arte (...) .

Silvina Rodrigues Lopes

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