sexta-feira, 17 de junho de 2011

lamento defraudá-lo, caro senhor primeiro-ministro

“Conto com todos para fazer desta situação difícil uma grande oportunidade, que vamos a tempo de agarrar, para transformar as dificuldades em aventuras. E os tempos terríveis que deixámos para trás, substituí-los pela esperança de podermos vir a ter dias mais felizes que vamos celebrar, nesse dia, todos em conjunto.”

Pedro Passos Coelho, no discurso após a vitória nas eleições de 5 de Junho de 2011


e assim, de mansinho, foi-nos prometido o futuro do futuro. nada que não se tenha já postado neste pasquim como um traço dos momentos que correm, no presente que é já só o futuro projectado a trinta anos.

há algo de messiânico nestas palavras de ppc. efectivamente, o que nos é oferecida é a salvação. não sem a alusão, algures no discurso por inteiro, ao que há de comum a todas as religiões e que o próprio termo religião expõe: o retorno a um momento qualquer em que o sentido de totalidade ou de unidade se expressa pelo peito aberto de quem é dono do seu destino por ter presente o ponto de partida. o ponto de partida, esse, é o momento qualquer, incógnito, em que o peito estava aberto, em que o ar entrava às golfadas, em que a união entre o sujeito e o que o rodeava era, mais que simbiose, uma perfeita unidade.

seria fácil partir daqui e fazer equivaler os cavaleiros do apocalipse ao fmi, ao feef, ao bce ou à ue. fácil seria, também, colocar-lhes a cartola e o colarinho branco, o charuto e a barriga ou o cifrão em alfinete de gravata. fácil seria, portanto, encontrar responsáveis pelo presente que não posso saber se apenas é o passado do futuro a quinze anos no meu presente. (preferiria pensar no que aqui há não de presente, futuro ou passado, mas de eterno. ou, pelo menos, de um eterno limitado pelo humano.) fácil seria acreditar que, identificado o mal, o caminho da salvação estaria à minha frente. fácil seria, também, fazer coincidir o programa político mais votado pelos portugueses com qualquer um daqueles cavaleiros. eventualmente, ao fazê-lo, largaria outros tantos.
mas contando apenas com aquilo que conheço do meu presente:

lamento defraudá-lo, caro senhor primeiro-ministro, conte com todos, mas não conte comigo.

2 comentários:

Anónimo disse...

eu cá só quero saber do presente e do passado, que, pelo que me é dado a saber, é a única coisa que tem uma existência garantida. E é preciso saber que passado é que criou este presente, para que, no presente, possamos dar uns sopapos em quem, no passado, o lixou.

sb disse...

ora nem mais. por isso é que no meu presente o senhor não pode contar comigo.

tudo o que está antes serve mesmo só para afirmar uma posição que tende a equacionar o momento presente perante aquilo que pode ser o comportamento, se o posso dizer assim, dos homens enquanto constante. nestas ou noutras condições materiais. nada mais.

de resto, equacionar o problema desta forma pode retirar-me, embora não seja seguro, da discussão dos hipotéticos cenários do como é que poderia ter sido - já nem falo das promessas de futuro e aqui concordamos completamente.

com que palavras o poderíamos fazer é que é mais difícil perceber. institucionalização? procura de poder (político ou económico)? instrumentalização? não sei. mas que a promessa do futuro olhando um passado mítico (e o problema, as mais das vezes, é quem nem mítico é), essa é uma constante. e está aí todos os dias.

diz isto um benfiquista encartado :)