sexta-feira, 25 de março de 2011

A esquerda a que eu me referi é muito simples de definir: socialista, liberal e empenhada em tornar um projecto europeu num projecto realmente democrático, que faça tudo o que possa para garantir a manutenção de modelo social. Refiro-me à esquerda como apontada por Rui Tavares, quando recentemente (peço desculpa por ter perdido o link) lembrou a se refere o acrónimo LEFT.

Como é bem claro, afirmei o meu espanto em relação a todos, repito todos, os que se sentam no parlamento. O terceiro estado português que todos conhecemos, e que no PREC foi bem definido como o estado a que isto chegou, resulta da actuação miserável de todos - e repito, todos - os agentes políticos nacionais ao longo dos últimos anos.

Partilho, claramente, o teu comentário Zé, A figurinha de Sócrates na Alemanha foi miserável. Vale-lhe ter sido alguma coisa, mas foi miserável. Como tem sido dito e reforçado - e muito bem - em muitos sítios por esse mundo fora, a única saída possível deste problema - nacional e europeu - é com uma posição forte de todos os países periféricos, dos PIGG’s, ou do que se quiser chamar. Até porque com a insolvência portuguesa, e como bem dizes, a banca entra em histeria. A Espanha é o país com mais interesses comerciais em Portugal, se não me engano, e quando esta não receber, o resto da Europa vem por arrasto. É preciso meter-lhes medo a todos, tens inteiramente razão.

Mas, então, se tanto o BE como o PCP apenas são anti-esta-europa - por minha parte suspeito bem que a posição anti-europeia de antes de 1989 tenha constituído um chão bem mais difícil de limpar do que o que dizes, ou seja, que já está limpo - pergunto-me porque, em todas as intervenções que ouvi, repito todas (das que ouvi, o universo está bem delimitado), a referência ao problema europeu é 0. Repito, 0. A discussão política a que tenho assistido por parte dos avençados da Assmbleia tem residido em: o PEC é mau ou este PEC é mau, na definição da numeração romana atrás do PEC, se é o quarto ou o quinto, se é PEC ou não. E continua, se o governo está bem ou mal, se a oposição está bem ou mal, se raio que os parta. Ou seja, e lembro-me agora de outro comentário acerca do debate do sporting em horário nobre na RTPN, tudo, menos o que interessa. Como se diz em Medicina, estar a discutir o PEC é estar a discutir o sintoma. E voltamos à razão que tinhas sobre a figurinha do Sócrates.

Mas, e era esse o objectivo do meu baralha, volta a dar e tudo na mesma, as eleições antecipadas não resolvem nada, o mais provável, aliás, é que piorem. A não ser que, e por isso a ideia da coligação de esquerda, haja uma posição forte acerca da Europa na discussão política que aí vem e se assuma que qualquer coligação PS-BE-PCP tem que passar pela afirmação clara da posição de Portugal no contexto Europeu e fora da lógica do bom aluno. E aí, se finalmente BE e PCP decidirem que também têm que contar quando se pensa na constituição de um governo, talvez possamos fazer alguma coisa.

Mais uma vez, já sabemos que isto não vai acontecer. Embora eu já saiba em quem vou votar, e já o sabia antes, e vou dar força a um dos partidos mais à esquerda na esperança de que não haja maioria PSD e PP e de que isto obrigue a esquerda a juntar-se. E mais, não será o mesmo em que voto para as Europeias, já que o Rui Tavares se tem revelado como a maior sorte que o BE teve na lista de independentes e que o Miguel Portas é uma mais-valia do partido. É pena que estejam arredados para lá.

13 comentários:

Anónimo disse...

Pois eu cá estou-me bem a cagar para a Europa. E isto porque a Europa não é Europa, mas antes a metrópole de algumas colónias (como nós). Estava melhor sem Europa, disso não tenho duvidas. Talvez tivesse demorado mais tempo a atingir um certo grau de desenvolvimento, mas, por outro lado, talvez tivéssemos mesmo chegado a um qualquer desenvolvimento...

A Europa lixou-nos. Quem nos vendeu à Europa encheu-se de dinheiro à custa do nosso atraso e da nossa dependência. Medida número um: sair da ue!

segismundo brotafrontes disse...

mais uma vez, volto ao mesmo.

a união europeia - ou uma europa unida - n existe para resolver um problema económico. e por isso a discussão não deve ser económica e por isso o zé tem razão qd diz que devemos meter medo. é o mesmo que dizer, a economia que se f+++. o problema é outro.

depois esse certo grau de desenvolvimento é simples de constatar. quando puderes, faz como eu nos últimos anos, e dá um salto para lá da cortina de ferro. quando vires a bósnia, a sérvia, a roménia ou a croácia que não está à mostra para os turistas. quando te enfiares num comboio na turquia que anda aos saltos como um 4x4 num trilho beirão e a parar horas à espera que venha um outro recolher passageiros - e isto num bairro a 45 minutos do centro de istambul, quando ouvires um professor universitário romeno dizer que ganha 350 euros por mes e n pode sequer sair do país porque não tem dinheiro, talvez aí percebas que o grau de desenvolvimento que estás para aí a falar é o equivalente a quando quisesses ir a lisboa pegasses na gamela, demorasses 12 horas e, quem sabe, talvez conseguisses voltar no mesmo dia para chegar no seguinte. e mais, quando quisesses uma orquestra ou um ensino de artes a sério mandavam-te dar uma volta. quando olhas para o museu do traje hoje, talvez fosse bom pensar no que ele ainda é do que era. quando vês o museu grão vasco, talvez fosse bom lembrar o portugal alcatifado que aquilo era.

por isto tudo, em vez de mandares a europa à merda, junta-te ao machado pela glória nacional. aí, talvez entendas pq é q uma união política europeia é desejável. talvez quando visses um tiro na tua direcção pela glória nacional, sempre só, entendesses que as insituições políticas não servem para te foder. ou não têm que servir só para isso.


ah, e era disso que falava quando afirmei que havia uns gajos anti-europeístas, aliás como são anti-democratas e como esboçam o autoritarismo, que andam encapotados.

sb disse...

e já agora, os primeiros são mesmo os líderes da união europeia. mas isso não invalida que a estrutura seja, em si necessária, invalida é que se olhe para ela como uma escolha entre o bem e o mal.

para mim serve para eu todos os dias me lembrar da primeira metade do século XX e da sua razão de existência. e basta.

sb disse...

nde se lia necessária, leia-se, desnecessária.

Anónimo disse...

O rui Tavares não é aquele gajo que votou a favor da intervenção militar na Líbia?

sb disse...

e haveria de fazer o quê?

Anónimo disse...

O problema é que eu não nem liberal nem democrata!...
João Pedro

Anónimo disse...

será os tomowhaks dos EUA têm defendido os civis Líbios melhor que as escolas e hospitais que entretanto foram destruídos, encerrados ou abandonados?

É que em Tripoli, tal como em Bagdad antes da América, o IDH era superior ao da minha cidade...

quanto à Roménia ou à Turquia, ao menos têm comboio... ainda que seja mau. quanto ao mais. orquestra e ensino de artes? nem daqui a 100 anos portugal terá a oferta, a qualidade e a diversidade artística e pedagógica da Roménia ou da Bulgária. Foi mal escolhido...

Quanto aos 350 euros, mete-lhe mais 200 euros e tens a média salarial do concelho de Paços de Ferreira (a Média! e isto num concelho onde há muitos ricos e num país onde o censos não contabiliza os sem-abrigo e as pessoas sem qualquer rendimento conhecido!...).

A descrição que vi de roménias bulgárias e afins não me parece muito diferente de Portugal, pelo menos em condições de vida gerais. Porque na cultura, e no ensino... parecem-me muito melhores!

sb disse...

pois. provavelmente encontraria, se me desse ao trabalho de procurar, um distrito onde o salário médio estivesse bastante abaixo.

portanto, compare-se o comparável:

os comboios suburbanos de lisboa com os de istambul.

o salário médio de paços de ferreira com o de pitesti, por exemplo. não fui ver, mas presumo que é suficiente estarmos a falar:
1. de acrescentar 200 euros aos 350, o que significa quase o dobro.
2. de compararmos o salário de um professor universitário com o salário médio de um distrito onde há meia-dúzia de patrões e uns uma enorme maioria de assalariados mal pagos (obviamente, não acho que a diferença salarial entre uns e outros seja salutar, é, aliás, uns dos maiores problemas em portugal. mas é só para especificar o que estamos a comparar).
3. na verdade tens razão quanto à diferença na qualidade do ensino. mas quanto ao resto não me parece que, pelo menos eu, trocasse estar aqui por estar lá (istambul seria, no caso, uma excepção).

depois aquilo que se passa na líbia é incomparável com o que aconteceu no iraque. desde logo porque houve uma resolução aprovada pela onu, pq houve o apoio inicial da liga árabe, pq há países árabes envolvidos, pq n implica uma invasão e, acima de tudo, porque falamos de um levantamento de pessoas na líbia e não de uma ofensiva vinda do exterior. e mais, é impossível, a não ser que se acredite num mito como o do 25 de Abril sem sangue, que a queda de um regime totalitário - ou qualquer outro - se faça sem danos.

sb disse...

e já agora, como não consigo dormir, volto aqui para ser mais concreto ainda:

uma discussão a sério era pensar numa alternativa viável a um modelo socialista, liberal e democrata, aproveitando a deixa do joão. podíamos desde logo começar por limar o que se entende por liberal e como pode isso jogar com o termo socialista.

mas deixando a discussão a sério de lado e dirigindo-me ao IDH de Bagdad e de Tripoli. O Iraque e a Líbia não são Bagdad e Tripoli. Podíamos começar por aí e socorrer-nos de toda a teoria que foi desenvolvida nos últimos 30 a 40 anos sobre a relação entre os centros e as periferias sabendo que estes fenómenos não são só globais. Depois, por exemplo no caso da Líbia, bem como de muitos dos países árabes, é exactamente pelo facto de o seu IDH ter aumentado que os levantamentos populares começaram.

Ainda: nunca referi a Bulgária. Porquê? Nunca lá estive, não falei com búlgaros, não conheço búlgaros. Como tal, não falo da Bulgária.

Nos outros casos não conheço a situação a fundo, mas estive lá. E então se a Roménia é um sítio tão catita e belo e cheio de gente boa com óptimas condições de vida - ?? - ora explica-me lá porque é que um MacDonalds paga a seguranças só para afastar pedintes? E já agora, para a resposta não redundar em o os gajos do macdonalds são o que são, o que interessa neste exemplo não é um juízo de valor sobre a cadeia, mas o que acontece naquele sítio em particular. E queres mais um dado sobre as fantásticas condições de vida romenas? Falei com um gajo num comboio que trabalhava numa daquelas empresas que arranja trabalho no estrangeiro. Os números que ele me deu eram assustadores. Só não quantifico porque não quero dizer asneiras. Mas posso, por exemplo, dizer-te que falei com um casal moldavo na vinda para Portugal. O panorama era ainda mais negro e nem deves fazer ideia dos problemas sociais que por lá se colocam e que, inclusivamente, põem em causa a capacidade pedagógica do ensino.
(Resta dizer à parte, e o joão e o zé devem gostar de saber disto, que o filho deles era capitão de equipa numa das equipas de miúdos do FCP - se não me engano ou era isso ou tinha sido capitão numa outra em que jogava e agora ia para o FCP. Já não me lembro bem, mas, joão e zé, se tudo correr bem vão ter um luso-moldavo vindo das camadas jovens!)

E ainda, para não cair num erro, retiremos do meu primeiro comentário todos os países da ex-jugoslávia, desde logo pelas guerras por que passaram e pelo peso que isso teve no desenvolvimento dos países que a constituíam.

sb disse...

e sim, estou ciente que portugal é um país com índices de emigração elevadíssimos - até vi algures que seria o 7º país do mundo com a maior comunidade de emigrantes.

mas por alguma razão nós acolhemos romenos e não vejo muitos portugueses a partir para lá, a não ser os que forem para o cluj e associados da primeira liga romena.

Anónimo disse...

como vês, no meio disto tudo também há vantagens: uma futura glória do FCP!

Quanto à Roménia (eu meti a Bulgária no mesmo saco, porque não creio que seja muito diferente… mas nunca fui a um sítio nem a outro), não duvido que seja pior do que Portugal em muitos aspectos. Mas repara que, por vezes, temos uma ideia muito negativa de um país porque tendemos a olhar para ele apenas segundo os nossos critérios de europeu mal-pago mas com TV e telemóvel topo-de-gama. E repara que quando eu falei de paços de ferreira referi-me propositadamente a um concelho do litoral, porque a realidade é pior quando vamos a armamar, figueira de castelo rodrigo ou mação… E repara que os salários abaixo do salário mínimo não são contabilizados para a média!

Outra coisa: 350 euros mensais a recibos verdes é quanto ganha em muitos casos um professor licenciado, e muitas vezes altamente formado, a dar AECs no 1º ciclo. Não é um professor universitário, é certo, mas estamos quase lá…

é evidente que estamos a comparar professor de aecs com professores universitários, concelhos deprimidos com subúrbios de capitais. Não haja dúvidas que os Romenos e outros que tais, fizeram escolhas profundamente erradas depois do fim da União Soivética, e é natural que se tenham deixado ofuscar pelo barulho das luzes: coca-colas, néons, vídeos, esquecendo que estavam a colocar em causa o essencial - do qual estavam bem melhor servidos do que nós, por exemplo…


Quanto à Turquia, é um caso diferente, tem uma história diferente, e não creio que se possa meter no mesmo saco.

A questão é que nem só Roménia e Turquia estão ou estiveram fora da UE. Podemos nomear uma série de países que nunca estiveram na UE, ou no EURO, ou que estão há pouco tempo e que têm índices a todos os níveis superiores a Portugal, Itália, França, Reino Unido, Espanha, Bélgica e até Alemanha.

Quanto à Líbia: discordo totalmente. É uma invasão por hidro-carbonetos. Não há volta a dar.

Ao contrário do que dizias, acredito que tem que existir violência para que as revoluções vão até ao fim. O 25 de Abril abortou no prazo de um ano por causa dessa mania do pacifismo. Sou a favor da violência: sou a favor de todas as formas de luta: da manif à tomada do poder pelas armas, passando pela revolução pacífica ou bélica.

Mas uma invasão é uma invasão. O General dos "rebeldes" Líbios, logo no início das festividades, antes da resolução da ONU, disse o seguinte: «pede e apela à criação urgente da ZEA para evitar que os interesses dos EUA sejam prejudicados».

"Os interesses dos EUA"! Ipsis Verbis!

Há um pequeno pormenor que não nos deve escapar, e que creio que não escapou ao saloio do Rui Tavares no seu Ipad: a bandeira dos "rebeldes" Líbios. É a bandeira do Rei da Líbia, a bandeira da monarquia do tempo em que a Líbia era uma colónia italiana. E é disso que se trata: restaurar a bandeira, restaurar a colónia, desta vez não só de Itália, mas da associação de criminosos Berlusconi, Sarkozy, Cameron e Obama. Que belos companheiros escolheu o nobel da paz!…

É que é preciso, a todo o custo, manter a política dos néons, da TV e do telemóvel último modelo, até ao estertor final. Simular a felicidade até ao dia,, à hora, ao minuto, em que a realidade nos esmagar. E para isso é preciso petróleo.

j

Anónimo disse...

mas, sim, tendes razão: Roménia não seria o país que eu escolheria para emigrar!…

Mas é curioso que, depois de organizar uma lista de países para onde poderia eventualmente emigrar, reparei que nenhum deles usa euros.

abraçoj