quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

o jmfernandes escreveu um textinho sobre o modelo de desenvolvimento português que agora muito circula por feicebuques e afins. esqueceu-se de um ou dois pontos. nem dá para acreditar na falta de honestidade. vou esclarecer

JMF omite descaradamente as principais causas para o endividamento, que foram

1. o crédito barato, propositadamente barato para o consumo crescer em contenção salarial. Isto não é culpa dos portugueses, em última análise apenas é culpa deles por não terem acordado mais cedo para a balbúrdia que se passava na altas esferas do poder e da finança. Este texto serve apenas e só para fragilizar a luta actual contra a ainda maior precarização das condições de trabalho, contra uma política de contenção salarial e desinvestimento, em suma, a austeridade, num período de contra ciclo. Isto é populismo do mais puro.

2. Os desequilíbrios no orçamento de estado devem-se quase exclusivamente às brincadeiras de adolescente de quem detinha o capital. Os mesmos que eram os braços direitos de antigos governantes, que chegaram aonde chegaram não por mérito próprio mas por relações de nacional-porreirismo. Quem paga o buraco BPN, ou o buraco das cajas em espanha, ou o buraco dos bancos irlandeses, ou o buraco dos bancos ingleses, ou dos bancos alemães, ou dos bancos franceses? Paga o POVO, directa ou indirectamente, quer através de austeridade, quer através de taxas de juros de usura sobre a dívida soberana. Porque as instituições financeiras chegaram agora à conclusão que precisam de mais cuidado quando emprestam, porque têm ainda o seu próprio buraco para tapar. O problema é que estão a emprestar para o estado tapar o buraco das mesmas instituições financeiras! Too big to fail! é a vida...

Para quem leu o dito textinho, não fomos "nós" que espoliámos esta geração. Foi, pura e simplesmente uma política que permitiu o crescimento económico assimétrico, os ricos a ficarem cada vez mais ricos e o resto na mesma. Realmente fomos "nós" que permitimos que tudo acontecesse, mas não pelas razões do JMF. Realmente é fácil acusar a humanidade inteira pelos erros de uns tantos.

2 comentários:

Segismundo Brota-uma-antipatia-por-JMF-que-não-é-de-hj-e-certamente-continuará disse...

Zé, não consegui chegar ao textinho dele, só à bela carta da senhora-menina que está chateada porque o mundo devia ser todo explorado como ela.

De qualquer forma, seja qual for o texto do JMF não é preciso muito para perceber a categoria do ex-director chefe do Publico que, curiosamente e vá-se lá entender porquê, contribui para o pior momento do jornal em 20 anos de história. Reparaste que na secção aniversário ele colocou 7 de Abril de 1957? Deve fazer anos, todos os anos, em 1957. É uma minudência, como diria o ex-director-chefe, mas que pode explicar porque ele nunca mostrou nada para além do óbvio. É que, normalmente, é preciso saber ler para responder a uma pergunta. E bem me recordo de todos os seus editoriais sobre os programas de aprendizagem de português. Agora entendi, era a ele que faziam falta. Talvez depois conseguisse passar da baboseira ao comentário a sério.

Peço desculpa por isto redundar em algo como um ataque pessoal, mas é que só depois de perceber como JMF lê, é que percebi porque nunca leu para lá do imediato. E preencher um ponto que pergunta o aniversário não é o mesmo que um que indaga a data de nascimento. Do mesmo modo que direitos adquiridos não significam direitos irracionais. Receio que, naquela linha de pensamento em relação ao aniversário, a sua interpretação dos direitos negativos seja tomada à letra como uma coisa forçosamente má, porque negativa, porque tem um sinal menos que alguém colocou no conceito por mera questão operativa.

Anónimo disse...

Tal como o Zé Miguel refere de passagem, há um risco que tem ocorrido muito ultimamente: o equívoco da geração. Aqui não há "gerações" boas e más. A questão é apenas entre quem detém o capital e quem não pode mais que obedecer. Não há nenhum estigma geracional. O embate não é entre gerações, mas sim entre classes. Sejam elas de que geração forem. Os donos do dinheiro (que são os mesmo gajos lutam para que o dinheiro seja o decisor de tudo o que existe na vida humana e fora dela) continuam a sê-lo na nossa geração, e continuam a explorar/aniquiliar seja quem for que se atravesse à frente da elevada senda da acumulação: novos ou velhos, geração de 50 ou geração de 80, geração rasca ou à rasca, direito, democracia, socialismo, igreja, ética, eleições, governos, seja o que for. É irrelevante.

Não nos deixemos enganar pela fábula geracional, portanto. Quem actua nos tais mercados de dívida são, as mais das vezes, tipos com 25 anos, cujo objectivo é reformarem-se ricos aos 40, e quase sempre cheios de coca e doenças venéreas das putas nova-iorquinas (ou então na versão beata, serão os nossos colegas do Pio, que estudaram na Nova, cujo salário é construído à conta de cortar reformas de 200 euros, apesar de estarem sempre enfiados no cu do Oliveira a rezar as missas todas da praxe). Os capitalistas são gajos da nossa geração a extorquir velhos, por vezes, enquanto outras são tipos da geração do Belmiro a explorar jovens estudantes universitários e outros igualmente jovens, mas a trabalhar no Modelo.

Se é too big to fail, então é, de certeza, demasiado grande para ser privado...