quinta-feira, 21 de outubro de 2010

(excertos de um texto para um seminário de teoria da arte)

Em A Metrópole e a vida do espírito , Georg Simmel afirma: “o que é crucial sublinhar é que, no contexto urbano, o confronto com a natureza pela obtenção de meios de vida dá lugar à luta entre seres humanos, sendo os benefícios por que se confrontam assegurados, não pela natureza, mas pelo homem” . Se existe aqui uma mudança na relação do homem com a natureza, e por conseguinte consigo mesmo, esta alteração é também descrita por Argan num artigo entitulado Urbanismo, Espaço e Ambiente . Parte integrante de uma compilação de textos do autor italiano, a proximidade das teses defendidas por Simmel e Argan não serão estranhas ao mote de Bruno Contardi no Prefácio à compilação, retirado de um texto de Simmel: “A Porta representa de maneira decisiva como o separar e o ligar são apenas dois aspectos de um mesmo e único acto. O Homem que primeiro erigiu uma porta ampliou, como o primeiro que construiu uma estrada, o poder especificamente humano ante a natureza, recortando da continuidade e infinitude do espaço uma parte e con-formando-a numa determinada unidade segundo um sentido” .

Ora, a mudança da relação do homem com a natureza que Argan descrevia nasce exactamente da projecção no futuro do fechamento deste acto inaugural, uma vez que em 1969, ano em que escreve o artigo, “na Europa, na América, no Japão, os estudos urbanísticos de grande alcance (mas os períodos mais longos chegam hoje ao ano 2000, portanto uma data bastante próxima) prevêem a urbanização, se não a unificação urbanística, de toda a face do globo terrestre, que viria assim a se configurar como um único sistema dinâmico de informação e comunicação. Como aliás, já hoje se configura – não direi para nosso deleite – o tecido urbano inteiramente utilizado, aliás explorado, pelas tecnologias do consumo de massa” .

Sabemos, em inícios de 2010, que a projecção da unificação urbanística falhou. A urbanização de toda superfície terrestre estará longe de ser uma realidade, mesmo com a pressão demográfica de um aumento populacional sem precedentes. Para tal terá contribuído certamente o envelhecimento da população dos países ocidentais que se seguiu ao baby boom do pós II Grande Guerra, bem como a diferente mundividência por detrás da ocupação do espaço nos países Asiáticos. Senão vejamos, se entre 1950 e 1970 a população europeia aumentou em cerca de 80 milhões, de aproximadamente 575 para 655 milhões de pessoas, crescimento que diminuiu ligeiramente nos 30 anos seguintes, cifrando-se a população europeia, em 2005, em cerca de 725 milhões de pessoas; já na Ásia, onde moram os gigantes indiano e chinês, os números para os mesmo anos são, aproximadamente, de 1.398 milhões em 1950, 2.143 milhões em 1970 e 3.917 milhões de pessoas em 2005 .

Todavia, não existindo uma ocupação urbana de todo o espaço disponibilizado pelo globo, aquilo que verificamos é o extremar da dissociação entre o homem e a natureza proposto por Richard Wagner como factor primeiro de um olhar exterior à natureza, isolada enquanto objecto de estudo, diferente de nós (humanos), pensada como algo em que não estamos integrados. Mas a dissociação de que nos fala Argan já não ocorre por oposição, por uma barreira criada pela Porta de Simmel, em que o homem se isola da natureza como protecção em relação àquilo que lhe é exterior. Ligando o espaço interno, o que se dá é um outro fenómeno pela conecção extremada do ambiente urbano, uma vez que “a natureza não está mais além dos muros da cidade, as cidades não têm mais muros, estendem-se em desesperados labirintos de cimento, desfiam-se nas sórdidas periferias de barracos e, para lá da cidade, ainda é cidade, a cidade das auto-estradas e dos distribuidores automáticos, dos campos cultivados industrialmente. E mesmo que algum pedaço de natureza sobrevivesse, escapando da especulação imobiliária ou da indústria turística, não o veríamos, porque o atravessaríamos a 200 quilómetros por hora de automóvel, ou o sobrevoaríamos a jacto” .

Neste sentido, entender-se-á a proposta aqui feita de relação entre as teses de Simmel e de Argan. Os benefícios porque luta o homem moderno – e em extensão o pós-moderno, se assim o quisermos definir - só lhe poderão ser garantidos pelo homem porque é num ambiente urbanizado que ele se move, é com um ambiente urbanizado que ele se relaciona. Em última instância, as consequências da sua acção, recorrendo a Zygmunt Bauman , jogam-se sempre com o humano, dado que o conjunto de comodidades que a contemporaneidade lhe oferece, e portanto as necessidades que ele pretende ver satisfeitas, resultam de uma mediação mais ou menos complexa, paradoxo de um isolamento potenciado pela imersão na massa urbana.

Deste modo, torna-se lógico que Argan utilize a categoria estética do sublime como instrumento na abordagem ao fenómeno dessa alteração da relação do homem com a natureza. Defende o autor que, para o sublime, a natureza “é um ambiente misterioso e hostil, que desenvolve na pessoa o sentido da sua solidão (mas também da sua individualidade) e da desesperada tragicidade do existir”.

Citando novamente Argan, percebemos a mudança que aponta ao abordar os desenvolvimentos da disciplina Urbanismo no final da década de 60 do século e os seus planos utópicos – referenciados na eventual ocupação urbana de todo o espaço terrestre disponível e que considerada utópicos mais por desinteresse financeiro que por capacidade tecnológica. Defende, então, que “o que é praticamente eliminado por essas concepções perspectivas do mundo é a natureza. E entendo a natureza como realidade indefinidamente estendida além do horizonte dos conhecimentos do homem e das possibilidades exploratórias e operativas do homem, ou seja, a natureza como mundo das causas primeiras e das finalidades últimas. O processo de desmitificação e de dessacralização de que tanto se fala, como se fosse o ponto de chegada do laicismo moderno, não é mais que a denegação da natureza como misteriosa região das potências incontroláveis do mito e do sagrado. (…) A verdade é que a região do mito e do sagrado, no passado – não tão remoto assim – era a natureza. ( …) [O sublime] representava o limite, a fronteira entre o habitado e o inabitável, entre a cidade e a selva, entre o espaço geométrico ou mensurável e a dimensão ilimitada, incomensurável do ser. E como se sabe que as estruturas do espaço não estão na realidade objectiva, mas no pensamento que a pensa, a dedução é fácil: a cidade é a dimensão do distinto, do relativo, do consciente, do ego; a natureza sublime é a dimensão do transcendente, do absoluto, do superego. (…) Digamo-lo, contudo: o componente utópico do urbanismo, que ainda hoje devemos considerar uma constante, nada mais é que a extrema ramificação da poética do sublime. Com o acréscimo, porém, de que hoje o sublime ou transcendente é dado como subjugado pelo esforço tecnológico do homem. Advém, assim, uma bem estranha inversão de posições: o mito do sublime e do terrífico, não mais representado pelas forças cósmicas, transfere-se para as forças tecnológicas, portanto humanas, que submetem as forças cósmicas e as utilizam. (…) A cidade, que, no passado, era o lugar fechado e seguro por antonomásia, o seio materno, torna-se o lugar da insegurença, da inevitável luta pela sobrevivência, do medo, da angústia, do desespero” .


torna-se óbvio porque é este um dos heróis modernos com mais sucesso.

4 comentários:

Anónimo disse...

foda-se, outro post grande como o caralho!

Anónimo disse...

ora, podemos encará-lo de várias maneiras:

uma posição anti-twitter

as ideias precisam de tempo e espaço

fazer copiar-colar sem editar é muito mais simples

também não vale a pena ler, por isso que se lixe.

de qualquer forma, deixo a indicação, o ( ) no início do post é dedicado a pessoas que espero não passem por aqui. mas que deviam bem ler o tal ide-vos para o c******. a todos os outro, um grande abraço!

s.b.

Zé Miguel disse...

bravo, clap clap clap

Zé Miguel disse...

bravo, clap clap clap