segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Segismundo Brotafrontes, aqui subscrevendo-se, não marcou o seu ressurgimento como havia marcado a sua morte.

Atravessador de desertos, como o foi ao iluminar as frias estepes da vida humana com os deuses do olimpo a chilrear-lhe pelos dedos num acesso anti-simbolista convertido naquilo que ele mesmo satirizava, encontrou-se no seu paradoxo.

Não sabe ainda, por ventura, a que geração pertence. A sua e a do seu acesso, nascido que foi depois do tempo em 1917, ano da glória futurista proto-dada portuguesa, pouco ou nada lhe disse porque pouco ou nada tinha para lhe dizer. E por lá ficou. Ressurgido em inícios do século seguinte, caído e levantado ainda antes do final da primeira década do mesmo centénio acordou pela mão de um trocador de mensagens o problema de uma outra geração. Ainda não a sua, pois que não sabe a qual pertence e já lá vão noventa e três anos.

E, de súbito, uma outra com acessos simbolistas lhe aparece à frente. Mais atirada aos maquinismos dos anos do seu nascimento, síntese que é de tudo o que foi para trás. Entre um dada e um niilismo que circula por caminhos análogos, atiça-lhe máquinas construídas para queimar como os planos que a formaram.

O futuro, que era aquilo que lhe prometiam, formava a esperança de um tempo vazio lançado a um presente a ser vivido por se sentir, constantemente, hipotecado. E aí chegava a festa e a parada, celebração onde o riso alarve escorrega a lágrima afundada na melancolia do estar só. Celebração dos sentimentos fortes que um colectivo enfiado nas suas individualidades exige. Porque faltam os sentimentos fortes. Porque o radical do humano é a transmissibilidade. O vírus da transmissão que a doença do século colhe em vida no que lhe dá em individualidade. E põe à mostra, traz para o nosso primeiro plano, faz-nos ecrã de remetermos o contacto à carne. Que é isso, mas é muito mais. Soma e sema são um ponto único que a fragmentação operativa insiste em não juntar. Sintoma, como o da doença prolongada que só o é porque é prolongado o hóspede. E assim se saúdam os fortes. Os que viveram e os que ficaram para ir vivendo. Na morte.

Mas sempre que um morre, outros trinta ficaram para viver. E é a transmissibilidade que os deixa, a ambos os trinta e um, ligados radicalmente no mesmo movimento. Que é o do tempo, que é para frente porque os ponteiros andam para a frente do lado de cima do globo como a água escorre para a esquerda do lado de baixo de cima do paralelo que põe o à frente a ser o para trás e o mais para diante. É que antes da abstracção do capital havia uma outra, a do tempo, essa que agora já não é abstracta, mas se esfumou na realidade que impôs ao mundo. É que às 10h00 abre a bolsa de londres e os outros trinta ainda vivem sem saber que futuro aquelas duas abstracções lhe oferecem no presente que é já só o imediato projectado a trinta anos.

E segue a parada em festa no riso alarve que acompanha o sorriso dos que já quase não vivem por saberem que nem aquilo lhes valeu. E atiram-se os planos ao rio e queimam-se as máquinas e afirma-se vencer a solidão antes de apanhar o comboio das duas e ir cada um em grupos a cada intersecção mais pequenos e mais pequenos ficam até que a última intersecção os torna maiores com um dedo do olimpo a chilrear-lhes pelos dedos porque dali são deuses e saltam as barreiras que acabam em desilusão na ilusão de valerem alguma coisa no horizonte do ecrã, como aqui.E dali lhes prometem o futuro, porque está à sua frente, é já futuro em movimento e não presente a afirmar-se insuperável.

E dão um grito em guitarras electrónicas que evocam a sanfona digitalizadas que foram na remasterização que do acústico deixo a unha ao invés da palheta. E apontam o fim do trauma que se seguiu ao choque e que verteu em nacional a querer-se internacional onde este cobria todo o lado que se deixou cobrir. Onde o autóctone, nascido da terra que é, esconde o sémen da transmissibilidade que o faz autóctone de todo o lado. Mas um autóctone daqui. E por aqui. Onde a aprendizagem e a troca são valores em boca de mundo a sair para fora que não deixa nada lá dentro. E fica o vazio.

Cheio de festas e paradas onde o riso alarve escorrega a lágrima.

E segue a apoteose e o fim e a necessidade de sangue e marcação de momento que daqui para a frente nada será igual porque daqui para trás tudo foi diferente e levanta-se e toma a cevada comprada quinze dias antes e marcada com encontro em fragmentação vidro cevada plástico no ponto de intersecção da sua dissociabilidade. E é esse presente logo projectado ao futuro e atirado ao passado. E fica o vazio.

Cheio de festas e paradas onde o riso alarve escorrega a lágrima.

E perde a sua geração atirada aos ares em FM agora com H também ao meio e por vezes sem F em cortes diacrónicos impostos por si ou a si porque esta é a idade. E chamam-no ao presente. Mas logo o atiram ao futuro e invocam-lhe o passado e dizem-lhe que traz o sinal consigo de um passado que não lhe pertence e que o excede, que este é o seu desígnio num futuro que insiste em manter-se à sua frente quando tudo o que lhe atiram é que o ultrapasse. Poruqe amanhã é assim, quero que inventes, agora, o depois de amanhã. E quando o fizeres, com as máquinas que te o mostram todos os dias no presente, vê o dia depois desse, e o outro. E eu, agora eu, que não o vejo, quero entrar em festas e paradas onde o riso alarve escorrega a lágrima e aí, lançado no meio de tudo isso que fui já com o modelo a seguir porque mesmo aí o código é esse, sei que esse fututo a escorregar a lágrima é o que me exigem. O êxtase, dizem, dura uma noite. A ressaca dois dias. E quando estiver a acordar, logo me pedem outro e outro. Porque os dias são os dos sentimentos fortes.

E acabando por o fazer, porque assim o exige a transmissibilidade, Segismundo Brotafrontes, aqui subscrevendo-se, não marcou, por isso, o seu ressurgimento como havia marcado a sua morte.



(e nem por momentos, valha a coincidência, pensou na Festa do Avante. A vontade veio da mais de 4000 km de distância. Porque é autóctone e o sémen é mesmo esse, o da trasmissibilidade. E já aqui deve ter sido referido de certeza. Apareceu em modo aleatório, como sempre o faz tudo o que deixa marca. Seja para ficar, ou não. E este não é para ficar. Mas deixa marca cantando a destruição com voz inocente.)

2 comentários:

Zé Miguel disse...

nao me digas que nao foste ao avante!

segismundo brotafrontes disse...

pois não fui não! pudera eu ter ido e estava nesta altura bem mais feliz, o que contradiz todo o post :D

mas como não era sobre o avante, não há problema.