terça-feira, 3 de agosto de 2010

André: estás enganado em vários pontos.

1 - O personagem de que falas é um líder sindical eleito pelos seus pares, numa eleição em que havia mais que uma lista e em que estavam representados praticamente todos os professores do país;

2 - o personagem de que falas tem, não por direito mas por obrigação inerente à sua função, de defender o sistema de ensino e reivindicar benefícios laborais para os seus pares: é a sua função, e ele executa-a muitíssimo bem;

3 - o personagem de que falas não é apenas o representante de um sindicato democrático, mas foi até escolhido para ser o representante da plataforma de todos os sindicatos dos professores (até dos amarelos) - legitimidade não lhe falta;
mas o teu principal erro reside no facto de não conheceres a realidade.

Assim:
4 - desde que é obrigatória a formação contínua para subida de categoria, de repente, sabe-se lá porquê, as acções de formação homologadas pelo ministério começaram a escassear;

5 - desde que é obrigatório ser profissionalizado para se ser professor e subir na carreira, os cursos de profissionalização praticamente desapareceram;

6 - os poucos cursos de formação contínua (relembro, obrigatória por lei, agora), têm todos lugar em grandes centros - o pessoal esquece-se que há gente a viver em Trancoso ou em Vinhais;

7 - a formação contínua e as profissionalizações são uma tanga: ninguém aprende nada, aquilo é tudo uma merda, dada por atrasados mentais e a tratar os professores-formandos como imbecis (infleizmente tive que fazer uma merda dessas, fiz seis cadeiras, 12 trabalhos, 6 exames, e só se aprendeu merda. Deixei de ouvir concertos, ler o Walter Benjamin e fazer desporto para ouvir alguns idiotas falarem de "gestão de conflitos na escola" e "tecnologias de informação". Os gajos acham que que vou ser melhor professor por causa disso);

8 - tudo o que é formação contínua e avaliação de desempenho criada por este governo ou pelo partido que alterna com ele não tem qualquer intenção de formar ou avaliar. Está-se tudo a cagar para a formação ou para a avaliação. O objectivo é só um: poupar nos serviços públicos ou, de preferência, acabar com eles;

9 - a título de exemplo, desde que, em 2004, passou a ser obrigatório os funcionários autárquicos serem avaliados para poderem subir de carreira... quase nenhum funcionário autárquico foi avaliado em nenhum ano!... e como tal, não subiu! A esmagadora maioria dos funcionários públicos não conhece sequer os critérios de avaliação. É simples: nos professores, nos funcionários, a avaliação, a formação contínua, essas merdas, não são mais do que pretextos para simplesmente barrar a subida dos trabalhadores, independentemente das suas competências;

10 - nos últimos 7 anos, um funcionário público médio, técnico superior, licenciado/mestrado/doutorado nas melhores escolas do país teve um aumento total da fabulosa quantia de: 15 euros!

11 - em Itália os professores do ensino público têm um horário completo de 12 horas lectivas e um salário 3 vezes superior ao português;

12 - em espanha ganham 4 vezes mais;

13 - em França têm 45 dias úteis de férias por ano, mais uma 2ª feira mensal para tratar de assuntos particulares;

14 - em todos estes países os professores têm tempo e condições económicas de se actualizarem cientificamente, sem prejuízo da sua vida;

15 - por cá, por outro lado, eu quero fazer um mestrado, só que não posso (apesar de ter directamente que ver com a matéria que ensino, ninguém me dá redução horária, ninguém me paga as propinas nem as viagens semanais a Lisboa, e sem essas condições, na minha situação laboral e familiar, não tenho hipótese de o fazer. Não tenho dinheiro, nem tempo, por ser obrigado a dar 33 horas semanais de aulas. Por outro lado, mesmo que faça o soberbo esforço financeiro e pessoal de fazer um mestrado a 250 km de distância, essa habilitação não me vai dar a ganhar mais um tostão, nem sequer trazer qualquer consideração adicional junto do Ministério da Educação ou das entidades que me tutelam);

16 - em todos estes países o ensino é considerado uma profissão de alto desgaste e risco, só em Portugal não é;

Formação contínua?! Avaliação?! Imbecilidades provenientes de um imbecil. Força Mário Nogueira!

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Duas informações, dois exemplos informativos e uma declaração:

Informação 1 - a FENPROF faz precisamente isso: negoceia com universidades e obtém descontos para os sindicalizados;
Informação 2 - nenhum sondagem recente baixa as intenções de voto no PCP, tendo acontecido aliás o oposto, com 10% na última sondagem;

Exemplo 1 (que conheço, mas que vai com nome falso):
Pureza da Conceição de Santa Maria, 35 anos, professora, 15 anos de serviço, 300 km de viagens diárias que ninguém paga, licenciatura em boa universidade nacional, professora de inglês no 1º ciclo do ensino público. Salário: 720 euros mensais, para 22h horas, dadas em três escolas diferentes e pagas a recibo verde por empresa que presta serviços ao estado. Nunca foi avaliada, está farta de formação contínua paga pela própria;
Exemplo 2:
Tó Zé Republicano Sousa da Liberdade, 32 anos, licenciado e mestrado no IST, engenheiro civil na administração pública local, 10 anos de serviço esforçado, esgotante e dedicado. Salário líquido, subsídios incluídos: 1115 euros (pagou o mestrado do seu próprio bolso, 2500 euros de propinas por ano, mais viagens semanais de 500km, mais estadias e alimentação em Lisboa).

Declaração -
Caro André, que fique claro: ninguém está aqui a falar de defender os interesses dos professores. A questão central é esta: se não fosse a FENPROF e pessoas como o Mário Nogueira pura e simplesmente já não havia qualquer serviço público de educação. Homens e Mulheres como o Mário Nogueira são a barreira que defende a educação pública dos ataques dos ineptos do PS(D).

Abraço
João Pedro

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