quarta-feira, 16 de junho de 2010

antes de mais, peço desculpa.

Vou para aqui especular um pouco por não ter preparação para mais. E mesmo tendo, duvido que o exercício se tornasse algo mais.

Aposto isto, segue-se a aposta.

Surgiu-me, e todo o peso desta palavra aponta ao inconsciente, que o jazz é um fenómeno a que se pode relacionar o estruturalismo. Quero com isto dizer que, e penso ser sempre esse o lado mais reforçado do jazz, enfatiza a improvisação, caminho que acreditando nas breves leituras circunstanciais da wikipedia vai aprofundar até abandonar as últimas âncoras de toda a construção intelectual da música europeia, dando-nos a conhecer os caminhos da descontrução desse mesmo envolvimento conceptual da música. Nada disto será novo para vocês. Mas é novo para mim.

Agora, aquilo que o poderia relacionar claramente com o estruturalismo seria a prática, a título de exemplo, de uma improvisação sobre uma dada escala. Nesta é-lhe conferido o elemento amalgamador de um exercício de liberdade quase total, situado entre os limites dispostos por essa base. Pense embora este condicionamento, a mera exclusão de um texto orientador, ou por outro lado, de um conjunto complexo de normas fixadas rigidamente, atesta o dinamismo do sistema que se vai desenvolvendo depois do conhecimento geral, no mínimo, de um mote.

Talvez se encontre aqui uma boa meáfora daquele que é um dos possíveis sentidos da história - e reforço também sentido porque a história só tem mesmo um, que é para trás e que se confunde muito facilmente com um sentido para a frente (ou para a direita, já que estou a escrever no mesmo sentido), como muitos se têm esforçado por explicar que não, dizendo que nem um sentido para trás tem - que é aliás a hipótese mais viável, esvaziando o tempo de tudo aquilo que pode ser para além de um sentido construído. A confusão tem, aliás, uma explicação ridícula, daquelas que não explica grande coisa, mas eficaz: ainda ontem vinha um cego de bicicleta e enquanto as rodas faziam força para trás, ele andava para a frente, para onde estava virado (no caso do senhor torna-se óbvio que muito mais, porque calhava) - retomando, um dos possíveis sentidos da história. Vamos acreditar em todos os movimentos que andam em volta das emoções, e portanto também do instinto, ou seja, daquilo que de mais liberto de conjuntos complexos de normas fixadas parece existir no agir humano. Ou seja, o que ali podemos encontrar situa-se mais na ordem de um condicionamento próprio - obviamente adquirido de alguma maneira, mas não é desse momento que falamos. Já foi atrás dito que, no exemplo da escala tonal, há uma base exterior que limita, orienta a improvisação, o instinto. O próprio tempo da acção, reforça esse lado instintivo que põe em prática, de forma quase automática, os variados ensinamentos do músico - e agora ficava bem a relação com as musas e trálálálá para reforçar o lado quase transcendente daquilo que vemos acontecer à nossa frente. Pois bem, venho ao mundo umas gerações depois dos engenheiros - dadas ou do espírito - e está-me no sangue. (nesta frase duas notas: venho, porque abandono, a seguir ao tempo, toda a noção de passado ou de futuro. não estará tudo no sangue, senão em vez de sangue, diria adn.)

Estou-me a perder nisto e tenho outras coisas para fazer - não digo que é tarde porque perdi essa noção há umas linhas atrás quando dei um chuto no tempo e na história. raios, no entanto as linhas estavam atrás.

Portanto, cá vai disto em tópicos.

Jazz - Estruturalismo

Sistema dinâmico não-linear.

Procura da base que confere nexo a um grau cada vez mais acentuado de exercício de instinto.

Podíamos chutar para muitos lados: regresso ao primitivo (suspeito bem que este primitivo não é bem o mesmo do dos museus do homem, está antes dele). Machadada na constituição que assim foi constituída e definida para todos. E mais não digo que também não sei. Mas também me chamou a atenção dada altura qualquer coisa nos primórdios em que se falava de uma prática call-and-response (não sei como traduzir sem dizer parada e resposta. é junho de ano par e há, por isso, mundial de futecbol), que poderia ser eventualmente estudado como uma espécie de dispositivo retórico. Capacidade de harmonizar - sem atentar ao sentido musical estrito de harmonia, sobre um mínimo um conjunto de actores. O discurso recusa dos caminhos mais recentes do jazz, quer por razões comerciais ou de massificação, quer por um grau de desconstrução extremo.

Antes de me despedir, peço desculpa pelo tempo desperdiçado. negrito no tempo. olha, e porque não, tempo - escala tonal.

2 comentários:

Zé Miguel disse...

eu diria jazz e toda a música composta na europa ocidental no século 20, tal como, do fundo da minha ignorância, toda a diversidade de caminhos que a arte tomou neste velho continente apontaram para a desconstrução do envolvimento conceptual.

Se calhar também se passou o mesmo na américa, mas é mais evidente na europa.

Claro que posso ser sempre questionado sobre como poderie eu ter chegado a esta conclusão sem sequer conhecer o milionésimo da arte europeia do século 20. Mas felizmente acabou o século 20..

andré disse...

bem, o que a mim interessava era exactamente a questão do instinto. mas não deixa de ser verdade que dito assim como o disseste se torna bastante óbvia a desconstrução do envolvimento conceptual em todos os campos da arte.

mas essa é apenas uma parte e, provavelmente, a que foi sendo sempre valorizada por um olhar que privilegiou o choque e o novo.

é que na sequência da breve história do jazz que li, e por isso o remate sobre as recusas contemporâneas, não deixa de estar essa vontade de fixar algo. portanto, afrouxar, no mínimo, o movimento de desconstrução.

claro que o exemplo do post a seguir é sempre um indício. afinal, e talvez seja essa a lição mais recente, tanto os movimentos de desconstrução como de construção são constantes e simultâneos.

por isso a alegria enunciada há uns tempos de perceber que tudo é uma constante.

é algo que deve funcionar mais ou menos, arrisco, como as diferenças nas correntes marítimas à superfície e em profundidade.