domingo, 21 de março de 2010

(fui ultrapassado pela pena e recuso-me a censurá-la. )

Nos últimos tempos, em que a produção para este blogue foi nula ou fraquinha - isto se algum dia teve algum mérito, aprendi as virtudes de uma análise que passe pelo que as palavras nos dizem para além do que é evidente. Uma análise nas entrelinhas ou, por outra, uma análise estrutural.

Sobre a estrutura, ridicularizando, aquilo que se pode fazer num trololo. Não interessa o que se diz, interessa antes como é composto. O que ali encontramos? Tudo o que possamos pôr desde que coincida com o sorriso pateta do cantor. Uma alegria genuína. Ou inocente, diria um autor que recusasse a existência de qualquer sentimento não melancólico. Ocorre-me, agora, que é natural - pelos menos no meu raciocínio - considerar a alegria algo de inocente. Recordo aglomerações de pessoas com sorrisos constantes sempre associados a um copo: pedaços de felicidade induzida pensava de mim para mim. Errado. Alegria por estar ali e desfrutar do que se tem. Inocência por não saber que existe algo para além daquilo que se vê? Não. Certeza do momento que se vive.
Há, numa junção do género, algo a retirar para aquilo que é a construção do conhecimento.
Estarei com toda a certeza errado se traçar o caminho do racionalismo entre o caminho que parte da crença na ciência e a chegada a uma descrença na mesma. Todavia, e é esse o ponto simplificado a que pretendo chegar, colhe a noção de que o Ocidente correu do positivismo para uma profunda abominação de tudo o que seja relativo ao progresso ou à busca da razão dados os acontecimentos da II Grande Guerra. Versão de compêndio. Em última análise, o pobre ‘Escrever depois de Auschwitz’ de um autor que não recordo o nome - mas que é de reter se se derem ao trabalho que não quis ter de pesquisar na www - é uma demonstração da falibilidade do argumento.
Depois do Holocausto o quê? Nada. Porque não há nada a dizer? Porque a ciência levou àquilo? Porque o homem é capaz de aquilo? Acabou-se o humanismo? Treta. Depois do Holocausto, nada. Porque o holocausto é só a prova daquilo que o holocausto é e que a razão deve combater. Fim? Nada. Argumento para a continuidade. E argumento para a manutenção da história e da procura de origens. Existe, no modernismo, um olhar às origens. De onde ressalta um argumento simples: se o modernismo é resultado do caminho da razão das luzes, o Holocausto é uma manifestação daquelas que são as suas lutas internas. Desacredita o caminho das luzes? Duvido. Acentua-o.
Pela mesma altura, em Portugal, em 1933 aprovava-se a constituição que marca o início do Estado Novo. Na mesma altura não, que devemos marcar as datas. O Holocausto, sabemo-los, mantém-se intimamente ligado aos desenvolvimentos da IIGG. Mas em 1933 o Partido Nazi chegou ao poder na Alemanha. Marco. Para o Holocausto extra e intra-fronteiras nacionais.



Por esta mesma razão o Holocausto é não um marco que abate aquilo que é a vitória da política e de um povo, mas sim a chamada de atenção sobre aquilo que deve ser a política e um povo.
Porquê esta ressalva?
Conhecemos o dinamismo dos corpos e conhecemos a chamada de atenção de Harendt no centro das hostilidades. Formulemos desta forma: os tempos sombrios não são nem uma inevitabilidade nem uma raridade histórica. Por isso a memória deve persistir. Para que se tornem evitáveis, assumam formas mais ou menos ruidosas. Para isso a História.


A resposta é nunca esquecer. Todo o pós soa a um pôr de lado o que estava antes. Não cometamos o mesmo erro e perspectivemos a ‘longa noite de mil anos’ de que falava Duby. Não porque não esteja recuperada. Não é ela que nos interessa. È o esquecimento. São as origens do modernismo, nos seus dois sentidos. É a fantasmagoria.
Não são os pedaços de felicidade induzida a apagar o que está imediatamente atrás de nós.
É a felicidade de saber que tudo é uma constante.
Não são os pedaços de felicidade induzida a apagar tudo o que está adiante.
É a felicidade de saber que tudo é constante.


Olho a minha sombra. À espera de algo que se mova enquanto se mantém constante. Sou eu que mudo enquanto a olho. Sou eu, que mudo! Afasto os tempos, o passado e o futuro. Só quero o presente. Só me interessa o passado. O meu único futuro é o que já foi. O futuro já o sei. É o passado que me o oferece e sou eu que o construo. E é esse que não quero, já o conheço. Está no meu passado.


Por isso se torna evitável. Qualquer deriva. E aí jogamos com o resultado dos fins. Os vários. A vertigem obituária que nos foi sendo oferecida. É o fim que nos ocupa quando o começo está já ali. Qual melancolia dos que não se encontram? Afirmemos antes o começo. De quê? Pouco importa. É essa, agora, a lição da razão das luzes. O eterno retorno transmutou-se. Tornou-se óbvio. Aquilo que nos deve ocupar é o eterno começo. Não a mudança ou o novo. Mas o que for. Praticamente tudo, desde que não o futuro que o passado agora nos oferece.
E hoje, perante nós, perante Keynes, perante o PEC, perante a abstracção do Capital resta-nos a certeza de que isto já foi.

‘You see, reverend Maynard, tomorrow is harvest day and to them it is the Holocaust.’

E não são vidas tomadas em câmaras de gás.

Sentimo-lo. Nos condomínios privados. Nos colégios privados. Na retracção da esfera privada em proveito do bem-estar público que não passa de segurança privada. Não são escutas. São actos patrióticos que não passam por escutas de brincar. O que importa é o que estamos preparados para ceder. Nem o público, nem o privado. Isso ensinou-nos a razão! A ninguém. À esquerda ou à direita.

O que nos deve alertar é a independência. Não o sistema. Mas o que o condiciona. Não o que o passado nos oferece. Mas aquilo que temos e de que não abdicamos. Não direitos adquiridos. Mas direitos afirmados e firmados. Não o SNS ou ADSE, mas um Estado que responda ao meu imposto com um sistema de saúde que trate a mim e ao outro com a dignidade que ambos merecemos. Queremos ser iguais perante o Estado para que nos seja permitida a diferença.

Queremos o Nós a potenciar o Eu.




Coloquemos a história recente perante a História.



(Neste discorrer encontramos demasiadas contradições internas para o poder afirmar peremptoriamente. O Nós que potencie o Eu não é mais, em última análise, que a pátria que Almada exigia para si próprio. Todavia, e aí reside a diferença, diz-nos a história que a resposta totalitarista e elitista falhou. Sobre a promoção de um parte da população de um território fala-nos o Holocausto nazi ou a estagnação nacional ao longo dos 48 anos que se seguiram ao pedido de Almada. Mesmo ele parece ter-se desencantado. Como Pessoa, que da tendência totalitarista de Sidónio Pais passou ao desdenho de Salazar. Aquilo que nos distingue é um passado que informa. Não queremos um Estado Totalitário. Queremos um Estado Forte. Não queremos a anulação do Eu, queremos a afirmação do Nós na sua máxima expressão. Como soma, multiplicada. E não coeficiente de tudo que poderia ser.)

1 comentário:

Zé Miguel disse...

ocorreu-me este parágrafo de um inglês qualquer (fica salvaguardado o direito do autor) quando li o poste:

The materialistic and selfish quality of contemporary life is not inherent in the human condition. Much of what appears "natural" today dates from the 1980s: the obsession with wealth creation, the cult of privatisation and the private sector, the growing disparities of rich and poor. And above all the rhetoric which accompanies these: uncritical admiration for unfettered markets, disdain for the public sector, the delusion of endless growth.

We cannot go on living like this. The crash of 2008 was a reminder that unregulated capitalism is its own worst enemy: sooner or later it must fall prey to its own excesses and turn again to the state for rescue. But if we do no more than pick up the pieces and carry on as before, we can look forward to greater upheavals in years to come. And yet we seem unable to conceive of alternatives.