terça-feira, 1 de dezembro de 2009

o canto dos pássaros



Tive ontem a oportunidade de conversar com Albert Serra, numa sessão de cinema que diz muito da cultura dita cosmopolita. A estreia deste filme aconteceu há quase um ano em Portugal, entretanto já tendo sido projectado em Viseu, e só hoje ontem chegou a Berlim. A sala, um cubículo com cerca de 50 lugares (5 filas com 10 cadeiras cada), estava vazio. 10-15 pessoas assistiram ao filme, para a conversa com o realizador ficaram 7.

E o que é que o cineasta nos contou? Aquilo de que já desconfiávamos: que nunca estudou cinema, nunca assistiu à rodagem de um filme que não um dos seus e que é o autor dos 2 melhores filmes dos últimos 30 anos em Espanha. E é verdade. Os dois filmes de Albert Serra aspiram à universalidade. Sobre o último, já muito foi dito. Se calhar interessa deixar aqui alguns pormenores técnicos. Serra filma em digital, mas faz a passagem a 35mm com todos os cuidados. Isto interessa, porque o digital tem uma profundidade de focagem muito superior, o que nos dá sequências muito pais pictóricas, onde cenário e pessoas estão dentro do plano (já não é um plano, quase um volume...) de focagem. Este pormenor, que não salta à vista senão quando nos é revelado, provocara durante o filme uma sensação de que assistiamos a uma sequência de quadros, uma forma muito inteligente de retratar um episódio pouco descrito na bíblia (cerca de três linhas), mas muito documentado visualmente ao longo da história da pintura.

No entanto, o filme 35mm não pode ser ipsis verbis o filme digital. Isso introduzir-nos-ia no mundo da video-arte, aparentemente não muito apreciada pelo realizador. Ao contrário de Honor de Cavaleria, onde interessa uma clareza e proximidade com os actores, em El Cant dels Ocels, interessa manter uma distância religiosa, cinematográfica, a lembrar os épicos do grande ecrã. Serra consegue-o monumentalmente.

Continuo a achar que o cinema de Albert Serra não é universal, apenas aspira à universalidade. Como discutimos ontem, não há maneira possível para alguém olhar para um filme como o Honor de Cavaleria e entender tudo o que se lá passa sem ter lido D. Quixote. Parece que a recepção do filme não foi tão boa fora da esfera da cultura ocidental. Pudera.

Mas eu vou mais longe. O filme capta formas de viver, caminhar, falar e de não fazer nada que não são comuns sequer a toda a europa.

Quem nunca teve uma conversa sem sentido numa pedra quente à beira rio, muito dificilmente compreenderá isso.

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