terça-feira, 29 de dezembro de 2009

era também disto que falávamos

este é um produto das tão horríveis distopias do século XX.

Embora Ortega fale de Strawinsky, de Pirandello, de Picasso, de Mallarmé, consegue discorrer de modo excelente sobre arte, e até mesmo sobre obras de arte, sem nunca tomar como pedra de toque a análise minuciosa de um exemplo concreto, pecado do filósofo, pecado que é a condição da sua renúncia a julgar, prescindindo do risco do julgamento, como se não houvesse condições para o fazer, já que para o fazer era preciso aceitar uma imagem originária qualquer, um modelo que permitisse aferir as comparações.


pois o buraco da câmara escura do marx não serve como modelo único, como nenhum outro.
ortega, pelo que diz molder no prefácio de uma edição da desumanização da arte do mesmo filósofo, sofria desse mal. modelo nem vê-lo. também é o que acontece a quem se arrisca um pouco fora do seu campo de acção. mas a ausência de modelo é O problema.

e um problema que se coloca também nestes moldes:
se n há um modelo a priori para analisar a realidade, então temos que analisá-la a partir do que ela nos oferece. mas para analisá-la, ou para que ela nos diga alguma coisa, temos que encontrar sempre um modelo de abordagem.

julgo que agora se torna claro porque é que a resolução da adivinha do ovo e da galinha iria salvar a humanidade, e também os moluscos.

sendo que a resolução do problema seguinte, o da excepção confirmar a regra, ser aquele que permite usar um modelo, confirmá-lo através das suas falhas, encaixar outro onde aquele falha e seguir em diante. em certa medida, a resposta estaria na complexificação do que é simples, até se encontrar um ponto de ruptura simplificado que permita a sua complexificação, e pia fora. o ponto de ruptura simplificado é, de modo muito simples, aquele em que um modelo claramente não serve e necessita de outro. ou seja, muda a perspectiva, altera-se a pergunta. e, geralmente, as respostas mais difíceis costumam ser as que são dadas às perguntas mais simples. neste caso, mesmo do ponto de vista da linguagem, a pergunta simples, concentrando em si menos palavras, dá-nos muito menos pistas directas para a sua resolução. talvez seja aí que entra a arte, porque se não as tem, as pistas, inventa-as, baseia o caminho que vai seguindo nelas e dá-lhes um pontapé se bem lhe aprouver (isto enquanto colectivo, uma vez que individualmente muitos anos teria que viver e trabalhar um gajo desses que faz coisas, como todos nós Bois [Beuys], para poder fazê-lo várias vezes).

um bom ano.

2 comentários:

Anónimo disse...

registo que, por coincidência, no dia da apoustagem o citador mostrava isto:

"Os erros são os portais da descoberta"
Joyce, James

ele há coisas do caneco oh oh oh

Anónimo disse...

Não entrando nas induções seguintes, de facto é evidente que Ortega andou desnorteado na "desumanização da arte", mostrando como o marialvismo pode ofuscar a mente mais brilhante.