quarta-feira, 4 de novembro de 2009

jogada de antecipação

E afinal chegou mesmo o poste sobre o Nicolau Stern.

Alguns ponto de que me lembro.

1. de uma forma geral, a teoria do crescimento económico (crescimento do PIB e afins) não tem grande sentido. Não contempla fortalecimento de instituições, avanços tecnológicos ou escolhas fundamentais de uma sociedade que possam não estar fundamentadas em termos económicos simples, mas em ética.

2. a taxa de actualização (TA) de um investimento, ou taxa de juro, que quantifica vontade de uma sociedade em gastar o dinheiro já em vez de o investir a X anos, também não tem grande sentido nos termos em que é utilizada no mercado. Uma escolha fundamental numa sociedade altera a TA, e essa mesma TA vai sendo alterada ao longo do tempo, quando novas escolhas forem feitas. Isto impõe uma dimensão adicional, a ética, que não é contabilizada. Um negacionista das alterações climáticas não valoriza da mesma maneira um investimento em tecnologia como um crente, porque as decisões de hoje só vão ter efeito daqui a 30 anos ou mais, e há alguma probabilidade de nem chegarem a ter qualquer efeito. Para tomadas de decisão na zona de influência das alterações climáticas, uma estimação da TA consentânea com a dimensão ética é fundamental. Uma discussão a seguir neste contexto, já que o próximo relatório do IPCC vai ter uma capítulo sobre o assunto: "Economics and Ethics".

3. a velha análise custo benefício sofre novo linchamento público. E de facto, a magnitude dos riscos de que falamos quando falamos de alterações climáticas é tal, que torna uma ACB insignificante. De novo, o custo da acção ou inacção quanto às alterações climáticas não é quantificável em termos de percentagem de PIB, porque se os prognósticos estiverem certos (acredito que alguns estejam, pelo que vi dos modelos a funcionar no meu instituto), o que nos espera com alguma probabilidade é, no caso de inacção, migrações de milhões de pessoas e consequentes conflitos à escala global por recursos naturais. Por outro lado, o valor dos serviços ambientais não está de todo clarificado: o que nos parece um dado adquirido, como terra arável, a chuva, a capacidade de limpeza natural dos rios, ou os serviços prestados por esta ou aquela espécie, torna-se rapidamente num serviço escasso e largamente valorizado (veja-se o caso do preço do petróleo). Como muitos destes sistemas têm um tipping point, ou um ponto de não retorno ou ponto de irreversibilidade, e para mais são nesse aspecto não lineares, torna-se muito complicado introduzi-los numa ACB. Uma possibilidade apresentada hoje, e que foi utilizada na Stern Review, são os métodos estocásticos. Acaba-se com o determinismo e o modelo em vez de apresentar um resultado apresenta um domínio de resultados. A vantagem é que se percebem melhor os processos, e se ganha consciência da incerteza associada (ai, a incerteza...)

4. último ponto, "market failures". O homem causa estragos quando emite CO2. Quando consome electricidade está a pagar directamente a produção, mas não as externalidades da produção, que são a emissão de CO2. Mais uma vez sou tomado por consumidor e vice-versa. Uma questão que me é cara, mas de difícil circumnavegação. O que fazer, legislar/regular ou internalizar os custos? Eis a questão. Deixou-nos com duas ideias à discussão: é preciso credibilidade nos modelos económicos que regem os mercados, por isso é necessário internalizar os custos das emissões de CO2, apesar de ser o diabo quantificá-los. Por outro lado, a regulação e a política têm de ter uma palavra a dizer.

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