quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Sobre MPL porque uma longa batalha se adivinha

«Mención especial merecen los carteles de Ferreira Leite que jalonan las carreteras portuguesas. "Não desista. Todos somos precisos", reza. Pero la desolada foto en blanco y negro de la candidata, sin maquillar, podría hacer pensar a los turistas que visitan el Algarve que se trata del mensaje de una asociación de apoyo a la tercera edad o de prevención del suicidio.» Jordi Joan, La Vanguardia

Estes já perceberam qualquer coisa do que se passa. Manuela Leite é mesmo Pherreira.

Não seja de ser digno de registo que Mário Soares diga que a senhora na sua entrevista da RTP com Judite de Sousa há uns dias atrás "foi de uma banalidade que, algumas vezes, roçou o patético". Recordemos que já quando passavam os créditos finais a única coisa que Judite de Sousa conseguiu dizer a esse fantoche do Cavaco e outros tantos se resumiu a um "foi giro, não foi?". Continuemos com os belos cartazes com frases que apenas abordam, quem?, o Outro! no único laivo pós-moderno e após Cartilha de 1933, também conhecida como Constituição, que essas cabeças conseguiram produzir: "Prometam apenas o que podem cumprir" ou outros dizeres enderaçados ao Outro. "Sim, que o nosso programa eleitoral se fosse reduzido a uma folha A4 não perdia nada", esboçou algo assim a estática Pherreira.

Sim, sem dúvida patético. Podemos gostar ou não de Mário Soares, mas não esteve longe de um retrato final e fiel e em apenas uma palavra - para quê uma folha A4?.

Tudo isto, a bela entrevista que nada perderia se fora diálogo na esplanada do Paládio ou do Horta com toda a vacuidade e superficialidade da modernidade dos tempos que formaram Pherreira lá para a década de 20 ou 30 do século passado entre "tem um cházinho?.. Não?!? Então um copinho de vinho branco" e um éclaire de chocolate, ocorreu sob o espectro de uma outra entrevista no mesmo programa oito dias mais tarde. O próximo senhor é José Sócrates.

Manuela Pherreira Leite, a quem para comprometer-se basta existir, não quis concerteza oferecer armas ao próximo adversário, "um animal feroz" nas suas próprias palavras, e afirmou a sua dignidade. Rejeitou comentar os caso de António Preto e da outra senhora, rejeitou a ideia de não ter um programa afirmando que tudo o que tem vindo a afirmar nos últimos meses se constitui como programa eleitoral, rejeitou todas as incoerências do seu discurso recente sob a túnica azulada de Virgem Maria que nem o seu traje bege parecia esconder. E só se abordaram incoerências recentes. Que dizer das "piquenas e médias empresas" que se viram a braços com o PEC ou da célebre venda de dívidas fiscais ao Barclays de Pherreira enquanto Ministra das Finanças?

Pois bem, essa senhora arrisca-se a ser Primeira Ministra. Arrisca-se, porque presume-se que por sua obra e graça não chega lá. O que, parecendo que não chegará aos comandos da pátria amada, como Pherreira cantarolará no seu leito depois de rezar ao anjo da guarda, não deixa de ser um cenário pavoroso. Mas se não chegar a coisa não parece muito melhor.

Se ganha o PS com maioria absoluta, continua o fartote do governo e da oposição e o país em estado de sítio. Continua o BE a subir nas sondagens e temos o outro lado da moeda de Pherreira a chegar a níveis de aceitação preocupantes - preocupantes porque Pherreira e António exibem uma mesma tendência discursiva: o que dizem é a verdade e todos os outros mentirosos. Negociação? Não, para o bem da democracia, claro está. E falta o PP de Paulo Portas, que no último discurso se aproximava a espaços de uma imagem de Hitler - injuriosa para o senhor, apesar de tudo, mas que não deixou de fascinar nas parecenças do cabelo cuidadosamente penteado e a sombra do nariz que fazia projectava um bigodinho reconhecível em qualquer parte do mundo ocidental - e em que o bom tribuno, também apesar de tudo, se desmanchava em popularismo a lembrar o "regresso à ordem" de entre grandes guerras. O PCP continuará igual a si mesmo.

E é este o último partido a ser referido porque num outro cenário, de uma coligação PS - PCP, tudo o resto continua válido. Eventualmente a implosão do PSD e a subida de intenção de votos do BE e do PP.

É por isto que uma longa batalha se adivinha. E das duas uma, digo na minha inocência, ou partimos definitivamente para um panorama político em que diferentes partidos assumem diálogo ou a coisa pode correr bastante mal. Até porque da direita portuguesa não se espera nada de bom - o que poderia revelar de bom senso liberal nunca foi propriamente característico da direita conservadora portuguesa - e da esquerda, bem, o bom senso socialista nunca foi propriamente seu apanágio.

O que a mim preocupa, muito sinceramente, é chegar a 2009 e ter que confiar no bom senso de alguém ou - pelo que perpassa discursos de alguns, certos e determinados líderes como Pherreira ou António - na moral de alguma pessoa, singular ou colectiva. Não o farei, afirmo-o desde já, mas receio que o tique discursivo pegue, colha frutos e ultrapasse os limites estritos do discurso.

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