quinta-feira, 28 de maio de 2009

+1 confere

e continuando o meu périplo wagneriano de segunda acabo agora de chegar de um Tanhaeuser. Uma bonita história de cruzamento entre amor carnal e espíritual, amor físico e platónico.

Há uma coisa engraçada nesta série de óperas que tenho visto: soam a corriqueiras, dada a frequência com que são levadas à cena. Este Tanhaeuser é apresentado semanalmente durante o último meio ano, intercalado com mais duas ou 3 óperas de Wagner, Strauss, Puccini e Verdi, todos os dias há música naquela sala, sempre tocada pela mesma orquestra (com formações diferentes, mas ainda assim...). Isto faz com que um Tanhaeuser seja um pão nosso de cada dia, com as implicações artísticas que isso comporta. Isso transparece na interpretação, quer no nível de concentração da orquestra e dos cantores, quer na atitude mais clemente do público, que perdoa falhas e valoriza muito mais o que foi bem feito do que as falhas pontuais que há sempre aqui e ali (coro desgovernado logo a seguir ao prelúdio, uma madeira desafinada em pontos chave da obra, dinâmica perfeitamente exagerada nas escalas cromáticas descendentes que pontuam toda a peça, TARA-TARa-TAra-tara-tara-tara-tara-TARA-TARa-TAra-tara-tara-tara-tara-tara-etc -- está mal!)

Mas agora a intriga: o Heinrich é um malandro e visitou o monte de Vénus durante o prelúdio. Vénus ficou visivelmente satisfeita, mas Heinrich teve de se ir embora sem sequer tomar o pequeno almoço (onde é que eu já vi isto...). Depois decide voltar, mas o pai de Vénus organiza um concurso entre cavaleiros onde o que cantar melhor o seu amor ganha os favores da germânica Afrodite. Encantados da vida por não terem de desembainhar a espada, todos cantam laudas ao amor espiritual, ai meu deus que és mais bela que a estrela da manhã, tão virgem que és minha filha que nem te posso tocar e por aí fora... Chegada a vez de Heinrich, o que se ouve é um hino ao prazer, à fertilidade, ao amor carnal, "quem anuncia o amor espiritual nunca subiu ao monte de Vénus", apregoa ele (e bem). Óbvio que o pai não gosta e, azar dos azares, por acaso até é duque daquelas terras onde todos viviam, de modo que manda o Heinrich dar uma volta, lavar os pecados a seco em Roma e se regressar vivo, então sim, pode tomar Vénus para si (tomando também Vénus Heinrich para si, porque o gosto pelos lençóis é recíproco). Há mar e mar, há ir e voltar, regressa Heinrich, já com a alma a cheirar a alfazema: o amor carnal é completo, verdadeiro e vale por si, não ficando em nada a dever ao espiritual, porque Heinrich sofre como um apaixonado, física e emocionalmente. Mas tudo acaba bem.

As conclusões são muitas, mas principalmente o que fica é uma mensagem muitíssimo romântica (do romantismo, não cor-de-rosa...) dos primeiros contactos em muitos séculos com a carne, com a paixão flamejante, erótica, que dava os primeiros passos. Pelo menos foi o que me pareceu. A soprano também era bem boa. E por aqui ficamos

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