sábado, 4 de abril de 2009

a responsabilidade não é de todos

Para contextualizar, vem isto a propósito de nos últimos tempos me terem aborrecido com a faceta política do consumidor. Primeiro, querem-me convencer que sou consumidor. Depois, que eu, como consumidor, posso tomar decisões de raiz política. Ora, isto encerra uma mentira e uma contradição.

Eu não sou consumidor. Ninguém é. Quando alguém me diz que o sou, sinto-me insultado. Acho que sou mais do que isso. Sou uma pessoa política, consigo perguntar-me o que é uma obra de arte, passo por grandes crises filosóficas e contribuo para o avanço da ciência. A minha vida não se resume a consumir o que outros produzem. Isso faz parte dela, num maior ou menor grau, como sempre fez parte da vida de qualquer pessoa que tenha existido. Esta é a mentira com que nos acenam. Se a aceitarmos e fizermos a união de todas as partes, então encontramos a sociedade de consumo, a qual eu não acredito que exista. É uma construção intelectual, como todos os outros qualificativos que se encontrem para uma "sociedade": tecnológica, da informação, primitiva, mercantil, teocrática, burocrática, e por aí fora. Simplesmente, esta construção foi criada para nos fazer crer que pertencemos a ela e que dela não podemos fugir. Que não podemos deixar de consumir. Isto é-nos passado de diversas formas, não foi idealizado por ninguém em particular, foi crescendo, porque na medida em que foi beneficiando determinados grupos que a foram fomentando. Acho que chamam a isto um "discurso". A construção de um paradigma na sociedade, no qual todos na generalidade concordem e o aceitem, não o questionando. Acho que é esta a mentira.

A contradição é que, mesmo partindo do princípio que sou um consumidor, i.e., que à luz da sociedade de consumo o indivíduo é considerado um consumidor, sendo as suas escolhas e acções encaradas como tal, essas mesmas pessoas me querem fazer crer que o consumidor tem uma voz para ser ouvida. Aqui chega a contradição: dizem esses senhores que essa voz toma a forma do consumo. E que o facto de eu escolher uma cenoura bio para enfiar no rabo é um acto político (pelo facto de ser bio, claro). Eis, portanto, o admirável mundo novo: já não é necessário o debate político ou de ideias sobre a sociedade, as nossas acções no super mercado bastam. Para além da necessária falta de gosto, é uma grande contradição. Se é aceite que o consumidor tem uma voz (a sua escolha entre bio e não bio, ou entre uma detergente mais ou menos poluente), essa voz seria melhor utilizada na arena política, não na dos legumes. E é isso que se tem visto. As recentes manifestações por toda a europa provam não só que estamos fartos de não ser ouvidos como também que temos coisas para dizer. E que o super mercado evidentemente não chega para as nossas ideias. Resumindo a contradição: se o consumidor é um consumidor político, necessariamente vai encontrar melhores locais para o debate do que na prateleira dos congelados.

Esta linha de pensamento acaba normalmente na culpabilização de todos, o que é a mesma coisa que dizer que acaba na desculpabilização de quem tem na verdade responsabilidades pelo estado a que chegou a qualidade da água, do ar, dos nosso recursos ecológicos em geral; ou, extrapolando para outras áreas, para o estado da economia de um país, para determinados problemas sociais, etc. É uma linha de pensamento transversal a muitos problemas: se os consumidores tiverem peso na consciência, vão culpabilizar-se, entretanto esquecendo-se de averiguar que de facto é responsável por um determinado problema. Vejamos no caso da agricultura biológica. É aceite que é benéfica para o meio ambiente e saúde pública. No entanto, a escolha é deixada ao consumidor: se ele quiser, pode por mais uns trocos não contribuir para a utilização excessiva de pesticidas, por exemplo. Assim vai feliz para casa e não precisa de se preocupar. Sabe que todos têm essa possibilidade e que, se todos forem bons samaritanos, todos vão comprar bio. Acontece que nem todos compram por diversas razões. E a acção política do consumidor acabou no momento em que ele comprou o produto. Continua a haver agricultura intensiva, sem escrúpulos ambientais, mas o que importa é que, como a escolha está lá, existe já um argumento a favor da parte interessada: a escolha existe, a responsabilidade está do vosso lado.

Atingimos o busílis da questão. O racionalismo existe para corrigir essa arbitrariedade. Não nos podemos deixar ir no laissez-faire que esta linha de pensamento implica. Decisões devem ser tomadas baseadas em argumentos racionais. Se sabemos que a agricultura intensiva prejudica irreversivelmente o meio ambiente, é necessário fazer alguma coisa por ela. Não se pode esperar que eventualmente os consumidores se decidam a ter consciência ambiental (também ainda está por provar que os consumidores consigam mudar o que quer que seja). A responsabilidade não é de todos. Quem tem responsbilidade deve agir, orientado pelo debate político e por argumentos racionais. Existem argumentos, o debate está aí, é necessário chegar a uma conclusão e agir. Refiro-me à agricultura biológica, como me poderia referir ao uso de transportes públicos, à organização do território em portugal, à utilização dos recursos piscícolas, ou a muitas outras escolhas fundamentais.

O voto e o debate político existe porque queremos não deixar coisas por fazer. Existem argumentos subjacentes a todos estes temas que podem e devem ser discutidos. Este é um tema de uma importância suprema na encruzilhada em que nos encontramos, em que a democracia perdeu muito do seu significado antigo, mas onde possibilidades de participação nunca antes vistas se tornaram banais. Por isso é que digo não ao discurso do "consumidor responsável". Primeiro porque não sou consumidor. Segundo porque a minha responsabilidade tem um alcance maior do que o consumo. Terceiro, porque há formas mais eficazes de fazer política.

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