segunda-feira, 20 de abril de 2009

gosto muito de clichés e também de falar sobre o vazio

do alto dos meus 92 anos de vida, lembrei tudo o que vi neste quase século a partir de um pouste noutro blog sobre 'as vinhas da ira', um desses meus livros favoritos porque nunca li.
a partir daí, e tendo em conta a crise actual que tanto nos vai ocupando, lembrei a quantidade de vezes que ouvi dizer: 'o capitalismo está morto'.
ora, de cliché em cliché só falta mesmo acrescentar: 'viva o capitalismo' ou 'longa vida ao capitalismo' uma vez que já não me lembro qual era exactamente a frase.

com muita pena nossa, presumo que alguns de vocês me acompanhem, declarar óbitos apressados dará nisto: vem-se a descobrir que afinal não morreu, antes controlou alguns sintomas da doença que com o tempo tende a ser esquecida.

ora, como o capitalismo e todos os outros ismos, deveriam ser encarados como um meio e não um fim, diria eu, que se lixe o capitalismo. que me interessa a superficialidade dos sistemas se aquilo que quero não é um mundo de iguais mas igualdade de direitos e deveres?
esta igualdade, parece-me agora, pode ser oferecida por qualquer sistema que não me coloque dentro de hierarquias.

e mais: sou um número? que seja um número! é essa a igualdade que quero: chegar à repartição de finanças ou ao centro de saúde e ser chamado pelo 145682393 do cartão de cidadão e não pelo meu nome ou pelo dr. ou arq. ou eng. que está antes dele.
irradio alegria quando há um ruído a corresponder à mudança de número de um placar vermelho. ali sou igual, sou o número 32 da série B e não segismundo brotafrontes.
Este último sou eu como ser único que exige a liberdade de ser quem queira na vida que efectivamente vive na partilha com outros. Aquele sou eu como igual que pretende um serviço que é apenas e somente o lado mecânico da vida que quer viver para além do sistema e com um nome.

ora então, atirem-me lá, mas no capitalismo estás inserido numa máquina que te alimenta para que possas apenas e só continuar a trabalhar. e nos outros sistemas? porventura não trabalharei?

quero uma base que me permita viver. quero um sistema que não seja a razão de eu ser mas a optimização de todos os nossos seres. quero um sistema político. quero uma organização social que me coloque realmente entre-pares. quero um sistema que potencie a parte a partir da potenciação do todo que só existe se se atentar à parte. igualdade, fraternidade e liberdade. pois bem, como quase sempre falta à proposta francesa uma parte inglesa. falta a tolerância. concebem aquelas três sem esta?

e como bem dizia o zé, não sou um consumidor! sou um número e um indivíduo.
consumo como 124767348 ou como segismundo brotafrontes?

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