terça-feira, 13 de janeiro de 2009

ora, porque nem sempre os textos são académicos, cá vai uma contribuiçãozinha. reservam-se todos os direitos de autor e o camandro e tudo aquilo a que se tem direito a seguir a colocar isto em linha às tantas horas abaixo indicadas do dia em cima estabelecido (cuidado amigos, cuidado. com a ideia alheia não se brinca, vejam lá o que fez o ferro, que vos sirva de lição) embora ninguém queira essa léria para nada. mas, vai daí que os meandros obscuros das instituições mandam um gajo precaver-se contra elas, delas e depois, ainda por cima, por elas. é um bocadinho ao jeito de salazar, que ainda agora lia, que dizia, ou vai daí dizia o ferro por ele porque lhe apetecia que ele dissesse aquilo mesmo, que a censura era má, mas era contra os maus que só sabem dizer mal. ora portanto, para protegê-los deles próprios porque para o bem de si mesmos se for para o bem da nação, tal qual essas coisas que a academia faz por mim: não publiques, protege-te de ti próprio e guarda as tuas ideias para ninguém as ver porque para o nosso bem acima de tudo porque para o teu. pois bem, deixei de usar fralda já há alguns anos, apesar de, de quando em vez, ao rir-me acabar por escapar uma gotinha ou, então, quando assumo a soberba dos jovens insuflado da arrogância das bodas de prata que já há muito fiz comigo próprio e que amo como mais ninguém porque bem para cá da primeira pessoa do singular ou até do plural (e agradecia um plural na primeira pessoa, abrem-se inscrições a 23 de abril de 2017 para comemoração do primeiro centenário do meu nascimento numa performance a virar happening e funeral por apoplexia). de qualquer forma nada do que aí está é original, para que saibam. é um diz que disse se quiserem. porque eu digo que o alberto disse que o almada disse e nem sequer o digo muito bem. vê-se bem pelas gralhas que aos 91 ano nem os tre mo r es nos ajudam nem as revisões nos valem.


Lisboa, Dezembro de 1926.

´A ti (Nação), para que não penses que o dedico a outra´,

Foi no mês passado, exactamente no mês passado, e aqui em Lisboa, exactamente em Portugal, que Negreiros, Almada, José nos alertou para esse facto. Estamos aqui e agora. Mas que aqui e que agora é esse? Creio que disse mesmo: ‘Nós estamos precisamente no século XX. Há vinte e seis anos quase feitos que nós estamos em pleno século XX. Nós? Quem? Portugal? Não. Portugal não. Nós estamos com efeito no século XX apenas pelo facto de fazermos parte da humanidade actual, mas não pela razão de termos nascido em Portugal.’
Por isso te escrevo a dizer, vou. Procuro esse século XX. Afinal onde anda ele se quem o trouxe até nós não está ou está para ir ou já foi? E há agora, de há uns meses a esta parte, uns senhores de farda que nos dizem como devemos viver. O próprio Negreiros acredita, como eles, que falta a Portugal essa ideia de Nação em que os senhores que fizeram o juramento de bandeira acreditam. Mas não acredito neles, talvez ele também não. Ouvi dizer que ia para Madrid. Quererá ver mais? Não irá concerteza procurar ali a arte portuguesa. Ele próprio disse, se bem me lembro, que os problemas da arte espanhola não são os mesmos da portuguesa. Lá já há qualquer coisa e nós temos que inventar tudo de novo. Vamos, eu pelo menos vou, à procura do que possa trazer comigo e oferecer-te a ti, para que não penses que o ofereço a outra.
Talvez de lá escreva de cor aquilo aqui vi e perceba a razão do regresso. Foi Almada que mo ensinou, que não posso viver sem ti. És a razão do meu entendimento, a minha consciência. Só contigo posso criar-me e, depois disso, depois de me sentar e de digerir o que vi, pensar e mais tarde fazer. Fazer-me e fazer-te com algo de novo. Fiel ao um ideal, o meu que está no grupo mas que me deixa sair dele. Não é o programa que procuro, não é O mestre. Preciso de ver, ver mestres, construir a minha personalidade. Isso mesmo me ensinou Negreiros.
Mas por lá, antecipando a desgraça que me espera e que força o regresso vou encontrar gente e ideias. Mas o seu Ideal não é o meu, tal como o seu entendimento, ou por via do seu entendimento. Lá não encontrarei o grupo, com toda a certeza. O movimento. O seu não coincide com o meu. Mas gostarei de privar com eles, concerteza trarei algo, como já te disse.
Mas cá perdeu-se o grupo, o primeiro, que era alimentado de uma mesmo ideal, a nação e a construção dela e de algo novo. E cá produz-se algo novo? Sim, mas com que Ideal? Existe Ideal? Estamos frouxos, adormecemos. Há por aí pompiers voláteis ou de chama ténue, prestes a apagar-se. Muitos não se completam, deixa a história a meio, partem para África…mudam de profissão..esquecem o novo. ´Não há discípulos, só há mestres.’ Mas se criam algo de novo…não os deixam criar. Partirei à espera de poder voltar e encontrar onde posso mostrar a razão dos Libertos e porque, já dizia José de Almada, ‘as regras do pensamento universal só as pode encontrar cada um isoladamente’.
É por isso mesmo, minha cara, por isso mesmo que parto. Não quero perder mais anos na Academia a aprender como ver e o que ver. Já me ensinaram o que queriam. Já me emprestaram uma profissão. Sou um técnico, agora parto para voltar artista e receber da minha memória o que me faz. Não quero a glória, a consideração, nem sequer participar do comércio fraco que se faz por aí nestes dias. Quero que amanhã saibam o que é que fiz hoje. Preciso da educação e preciso de gente educada.
Sabe, cito outra vez o Negreiros, ‘Sistematizada, burocratizada, a nação perdeu a flexibilidade necessária para permitir o desenvolvimento das classes e das profissões. Todos os obstáculos, todos os atritos, estão sistemática, burocraticamente organizados numa barreira inexpugnável para derrotar sem piedade a mais corajosa e melhor das iniciativas’. Pois bem, vou, mas voltarei! Porque eles ficam, diz Negreiros, ‘para tentar destruir o Impossível em Portugal’. Para já não posso ajudá-los, tenho que me educar...voltarei.
Mas não como Sebastião, que não visto collants, nem acredito em messias. Acredito em mim, na minha construção múltipla, na construção da minha inteligência. Não sou sebastianista, mas voltarei para seguir o seu exemplo. Ser o Rei e dar a vida pela nação, na minha generosíssima criação que sou eu incluído na vida unânime da nação. Para isso, sigo os meus passos. Quero ser Independente, quero que a minha obra seja Independente…e só assim será unânime, só quando a arte for ‘o todo da vida visto debaixo de um aspecto’.

Adeus, volto em breve,
alberto mesquita

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