quinta-feira, 19 de junho de 2008

peço perdão ao teu tempo - pela pena que me dá que o tempo não seja o tempo que o tempo me dá.

'o tempo não espera por mim.
o tempo não espera por mim.
o tempo não espera por mim.'

que se foda o tempo.

a pergunta de sempre:
afinal o que é o tempo?



prefiro a poesia à retórica do momento.
e a ela prefiro a ciência,
ou a inconsciência.

num dia solarengo tentei encontrá-la.
há ciência, gritavam de todos os cantos do jardim.
cheirava a substral.
nunca mais me esqueci. foi, portanto, um momento inesquecível. o cheiro a substral, o odor. ai, como eu me lembrava daquele substral e como àquele substral eu era indiferente.
redimi-me. e como boa pessoa que se redime, fui-me embora.
ainda pensei gritar impropérios ao substral:
substral, quem és tu afinal?!?
sem substral, o jardim era mais vegetal!
fora o substral, fora de portugal!
se estás aqui, substral, eu vou para guadalcanal!
nisto gritaram-me: ó amigo, vai para casa!
teria ido, não fosse essa não ser a minha vontade.
e como, por essa altura, achava que a minha vontade era vontade de um ser,
fui por ali, fugindo aos arremessos do substral.

caíam folhas no meu caminho.
tive um acesso. de quê?, não sei, faltava-me o dicionário.
olhei o chão. ah! filhas de uma puta, estão aqui para me tornar sonoro!
antes de o gritar, pensei:
'folhas que flutuam, pedaços de natureza caída;
sou eu que vos piso, ó verdes cadáveres,
ou é a vossa angústia que se deita sob mim?'
o grito das folhas, com toda certeza, resultou do meu pensamento.
fora eu uma folha e gritaria.
e não é que gritei?!?
todavia pensei, gritei se ninguém me ouviu?

nisto passava um autocarro,
no autocarro um condutor, 20 velhas, 12 jovens e cristo.
mas mais importante que as velhas, os jovens revolucionários ou cristo,
um senhor, com voz colocada mas fora de tom, a guinchar:
'ciências....'
-olha este, disse a felismina.
-só faltava mais esta, retorquiu o arnaldo.
'sociais...'
-anda comprar ovos que eu digo-te, gritava o acácio.
'e...'
-e quê ó paspalhão?, perguntava a cremilde.
'humanas.'
-era o que mais me faltava agora, vociferava a arminda.
o homem, sentindo-se ameaçado:
-ó senhores, isto é o que me mandaram dizer. não se mata o mensageiro.
- o meio é a mensagem, ó amigo. gritaram todos em desuníssuno.

paz á sua alma.
todavia, quando o autocarro parou, todos saíram.
era o final da linha.
e, apesar de tudo, o condutor continuou.

alguém me ouviu, o grito não estava perdido.
e confirmava-se como grito. o que não deixava de ser bonito.
pelo menos para mim que gritei.
e segui o meu caminho. já chega de espalhafato,
vou deixar estas folhas para quem as pise.
crrac, atrás de mim.

'assassino!!' ecoou pelo jardim.

felizmente foi só um eco.
até porque não queria o meu caminho perturbado por essas vozes.
contestação? para isso estou cá eu e só nos tempos livres.

e alguém disse, lendo o meu balão:
'tu sozinho não és nada, juntos temos o mundo na mão'
então agarra a tua metade, contestei.
e até porque a sua metade era a minha, um chegava.

virei-me para o outro meio. e como o meio é a circunstância,
circunstancialmente fui-me embora.

depois, mais tarde, cerca das dezanove e trinta,
jantei. ora, nada há como um dia que acaba cedo.
não esperei pelo tempo.
e este, habituado ao seu mando!, ficou rezingão.

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